Por que é mais difícil e arriscado para Trump repetir no Irã o que fez na Venezuela
No início do ano, uma operação militar ordenada por Donald Trump capturou o ditador Nicolás Maduro no coração de Caracas, a capital venezuelana, promovendo uma troca de governo – não de regime, pois a elite chavista continuou no poder. Sob vários aspectos, o presidente americano saiu vitorioso, e isso o levou a usar a Venezuela como um exemplo do que poderia fazer com outras nações-problema, como o Irã. No início de fevereiro, Trump foi explícito na comparação ao anunciar o envio de uma armada naval para o Oriente Médio: “Como na Venezuela, ela está pronta, disposta e capaz de cumprir sua missão rapidamente e com violência, se for preciso”.
Um mês depois, o Irã está sob bombardeio e várias das cabeças da Hidra do regime teocrático foram cortadas. Morto está o líder supremo Ali Khamenei, assim como o chefe da Guarda Revolucionária, o ministro da Defesa e o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas, entre outros. Mas a tarefa de promover uma troca de governo ou mesmo de regime político no Irã, se for esse mesmo o objetivo dos Estados Unidos, é muito mais difícil e arriscada do que na Venezuela.

No país sul-americano, não houve reação armada e nenhum soldado americano morreu. A substituta de Maduro, Delcy Rodríguez, fez discursos condenando a intervenção americana e defendendo a soberania do país, mas entregou concessões concretas aos Estados Unidos. Centenas de presos políticos foram libertados de imediato e, mais recentemente, outros 1.500 pediram para serem aceitos em um programa de anistia. O país também aprovou uma nova lei para o setor de petróleo e gás, efetivamente abrindo caminho para a abertura da indústria – condições necessárias para o retorno de investimentos estrangeiros e para o afrouxamento de sanções econômicas por parte dos Estados Unidos.
A influência de Cuba no governo venezuelano foi afastada e Delcy aceitou receber mais imigrantes venezuelanos deportados dos Estados Unidos. Tudo isso sugere que o jogo estava combinado internamente para a deposição de Maduro, em troca da manutenção de um certo status quo. Afinal, ainda não há sinais de que haverá uma transição para um sistema verdadeiramente democrático no país.
O contexto para uma bem-sucedida troca de comando no Irã pela via militar que seja favorável aos interesses americanos – e aos anseios por liberdade dos próprios iranianos – é mais incerto. A principal diferença está na natureza dos regimes da Venezuela e do Irã. O regime chavista é uma cleptocracia com um verniz ideológico frágil, e instituições mais ainda. O apoio da cúpula militar venezuelana ao governo é puramente utilitarista; a sobrevivência pessoal e a manutenção de privilégios é a prioridade. Já no Irã, as diferentes forças de segurança têm raízes profundas na sociedade, uma vinculação direta com a ideologia da Revolução Iraniana em seu caráter religioso e anti-Ocidental e um histórico de substituição imediata de lideranças.
As elites políticas, militares e religiosas iranianas estão entrelaçadas e operam em um sistema construído para sobreviver às ameaças externas e às divisões internas. É possível encontrar rachaduras na estrutura institucional da República Islâmica, mas é muito mais difícil explorá-las e, como foi feito na Venezuela, cooptar algumas figuras-chave para obter um resultado previsível. O governo do Irã pós-Khamenei pode ser mais fraco e mais suscetível a pressões externas, ainda mais em um contexto de crise econômica e insatisfações populares à flor da pele, mas se o efeito dessa debilidade for uma fragmentação do poder político, há o risco de uma espiral de caos como a que se viu no Iraque e na Síria nos últimos anos. A fragmentação do poder no Irã é um perigo a ser considerado pois colocaria armas nas mãos de atores não necessariamente racionais e com agendas difusas.
Mesmo se o regime controlado pelos aiatolás conseguir se manter coeso, a segurança no Oriente Médio, com consequências graves para a economia global, está ameaçada. O poderio militar iraniano é incomparavelmente maior que o da Venezuela, e essa diferença é potencializada pela geografia. O estreito de Ormuz, que dá acesso ao Golfo Pérsico, por onde passam 20% das exportações de combustíveis fósseis do mundo, pode até não ser “fechado” pelo Irã, mas na prática se torna uma passagem muito perigosa para os petroleiros, o que tende a elevar o preço do barril de cru e a encarecer o frete marítimo global. Alguns dos maiores produtores do mundo, como o Catar, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Bahrein, o Iraque e os Emirados Árabes Unidos, estão ao alcance dos mísseis iranianos, como se viu ao longo do fim de semana.
Ao contrário da Venezuela, o Irã tem também uma capacidade de retaliação que vai além de seu arsenal bélico e de seus quase 1 milhão de soldados e reservistas. Por meio do Hezbollah, no Líbano, de milícias houthis no Iêmen e de grupos armados xiitas no Iraque e na Síria, o Irã pode incendiar o Oriente Médio. A fagulha consiste em outro elemento ausente na realidade política venezuelana: a motivação religiosa. O regime iraniano descreve o confronto com os Estados Unidos (e com Israel) como uma guerra santa. “Uma declaração de guerra aberta contra os muçulmanos, e particularmente contra os xiitas, em todos os lugares do mundo.” Assim o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, definiu a morte do aiatolá Khamenei. O Irã já promoveu e financiou atentados terroristas no exterior no passado. Acuado, poderia repetir a tática diretamente ou estimular grupos associados ou lobos solitários a cometê-los.
Não é de hoje que o Irã é um fator de instabilidade para o Oriente Médio e de insegurança para o mundo. Mesmo se não fosse, apenas a opressão sobre seu próprio povo já seria suficiente para considerar a queda do regime um objetivo a ser comemorado. Mas ainda não está claro se é isso o que vai acontecer. Trump pode até saber como sua operação militar no Irã começou e o que pretende com ela, mas não tem como saber como vai terminar. O Irã não é a Venezuela.
