Grupo de Boulos no PSOL tem baixas em meio a pressão por federação com PT
BRASÍLIA – A vertente do PSOL liderada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tem sofrido baixas em meio a pressões internas para que o partido aceite formar uma federação com o PT.
As dissidências evidenciam a resistência entre boa parte dos integrantes da legenda em torno da ideia de se unir ao PT, quase 22 anos depois da dissidência dentro do partido de Lula que originou o próprio PSOL.
A reunião que vai definir se o PSOL aceita ou não se juntar a PT, PV e PCdoB na Federação Brasil da Esperança está marcada para o próximo sábado, 7. A Revolução Solidária, de Boulos, defende publicamente que o partido dê esse passo, em nome de uma “unidade política para 2026 e para o futuro”.
Procurado, o ministro Guilherme Boulos não quis se manifestar sobre as baixas em sua corrente e sobre as críticas dos dissidentes.
Em uma rede social, a vertente defende que um quarto mandato de Lula deixe “mais marcas estruturais”. “Precisamos enfrentar e alterar o Congresso Inimigo do Povo, hoje hegemonizado pelo Centrão e extrema direita. Somar forças amplia a bancada de esquerda e impede que votos populares sejam perdidos pelo quociente eleitoral”, argumenta.
Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo nesta segunda, 2, o grupo de Boulos afirmou que, com o avanço do bolsonarismo, “não existe espaço para um projeto de simples demarcação ou para gastar nossas energias em disputas internas menores”.
A defesa enfática da corrente do ministro de uma federação com o PT provocou reação de integrantes da própria vertente. Dois deles, a vereadora de Florianópolis Ingrid Sateré Mawé e o economista José Luis Fevereiro, que fez parte da direção nacional do PSOL, decidiram se desligar da Revolução Solidária.
Em carta, os dois localizaram na derrota de Boulos na disputa à Prefeitura de São Paulo em 2024 a origem para as pressões pela federação com o PT.
“Boulos e o núcleo dirigente da Revolução Solidária mudaram de estratégia. Buscaram um atalho”, escreve Fevereiro. “Não se trata mais de acumular força à esquerda para disputar a hegemonia do próximo período político, mas de localizar Guilherme Boulos o mais próximo possível de Lula para tentar furar a fila da ‘benção’ em 2030.”
Fevereiro diz que um grupo dissidente da Revolução Solidária deve publicar um manifesto endossado por cerca de 60 militantes contra a federação.
A posição contrária à federação foi manifestada publicamente por outras correntes do PSOL, como Movimento Esquerda Socialista e Primavera Socialista.
“A federação do PSOL com o PT não ajuda neste momento. O debate é legítimo. Mas neste momento ela não cabe”, afirma em vídeo nas redes sociais a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), que liderou o partido no ano passado.
Ela dá dois motivos. “Um é matemático: duas federações, mais candidatos. Mais de mil candidatos ou pouco mais de quinhentos candidatos à esquerda para reeleger o presidente? Segundo, a federação do PT e do PSOL tem papéis complementares”, diz. Ela adiciona que o partido deverá cumprir a cláusula de barreira, maior preocupação do PSOL neste ano.
O atual líder da sigla na Câmara, Tarcísio Motta (RJ), endossa Talíria. “Unidade para reeleger Lula, independência para construir o futuro”, afirma. Pesa no Estado sobretudo o argumento de que federar com o PT implicaria no PSOL ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), na disputa pelo governo estadual neste ano.
Outros integrantes do partido também lembram que o PSOL tem pautas diferentes das do PT em áreas como meio ambiente e mesmo na agenda econômica. Essas críticas seriam suprimidas caso a federação avançasse.
Os componentes do PSOL mais alinhados a Boulos argumentam que seria impossível o partido sobreviver sem formar uma federação. Também lembram que a Rede pode se separar do PSOL neste ano e que há deputados estaduais petistas que ainda rejeitam alinhamento com o prefeito do Rio.
A cláusula de barreira é uma regra eleitoral brasileira que estabelece uma performance mínima de desempenho eleitoral nas eleições deste ano para assegurar que partidos possam ter acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda no rádio e na televisão.
Em 2026, para vencer essa cláusula, os partidos precisarão ter ao menos 2,5% dos votos válidos distribuídos em pelo menos nove Estados, com um valor mínimo de 1,5% em cada um desses Estados, ou eleger 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos nove Estados.
Em 2022, em federação com a Rede Sustentabilidade, o partido elegeu 14 deputados e conquistou mais um parlamentar para a bancada após a reversão de um resultado eleitoral no Amapá. Hoje, a federação tem 11 deputados do PSOL e quatro da Rede.
Os eleitos pela legenda são, em sua maioria, do Rio de Janeiro e de São Paulo. As únicas exceções são Célia Xakriabá (MG) e Fernanda Melchionna (RS).
Integrantes do partido contrários à federação reconhecem que o cumprimento da cláusula ficaria mais difícil, em especial se Boulos decidisse sair e migrar para o PT e tentasse levar outra grande puxadora de votos, a deputada Erika Hilton (SP).
No entanto, avaliam que pode haver crescimento na votação de parlamentares do partido e também veem possibilidade de o PSOL atrair nomes de peso para as eleições.
