6 de março de 2026
Politica

O Banco Master e o drama existencial brasileiro

A prisão de Daniel Vorcaro e a divulgação dos diálogos dele dentro do caso do Banco Master nos permitem uma série de revelações. A primeira revelação: o compliance do Banco Central simplesmente não funcionava. Como é possível uma autarquia de natureza especial independente, que foi votada no Congresso Nacional, autonomia do Banco Central, um ente regulador do Sistema Monetário Nacional, e um diretor e um chefe da área de fiscalização do banco tinham relações diretas com o próprio ente, uma organização privada regular, no caso do Banco Master, e uma troca de favores que a gente vai saber exatamente o que envolviam.

Aqui não significa uma volta ao Banco Central anterior, porque poderia ser pior, porque também nós tivemos uma revelação de que o presidente da República, a pedido do ex-ministro, contratado por R$ 1 milhão pelo banco, recebia fora de agenda o presidente do banco, o dono do banco, e chamava o o então futuro presidente do Banco Central. Imagina se esse então futuro presidente do Banco Central não tivesse mandato, se não tivesse o seu cargo, mas sua função diretamente dependente da vontade do próprio presidente da República, que o chama para conversar com o banco naquela altura já com uma série de complicações.

Sede do Banco Master, em São Paulo
Sede do Banco Master, em São Paulo

Nós também descobrimos, numa decisão do ministro Flávio Dino, um lado garantista, ou supergarantista, do nosso Supremo Tribunal Federal, que a gente desconhecia há um bom tempo, com a exigência da doutora Roberta Lushsinger, que é a lobista vinculada ao filho, teoricamente, supostamente vinculada ao filho do presidente, o Lulinha, que teve a quebra do seu sigilo pedida pela CPI do INSS e negada pelo ministro Flávio Dino. O argumento é que o pedido não foi individualizado, a conduta não foi individualizada. Quantas vezes a gente veio aqui mesmo, nos meus comentários, perguntando por que a conduta daquelas pessoas envolvidas lá no 8 de janeiro não eram individualizadas: quem quebrou, quem não quebrou, quem entrou, quem invadiu, quem não invadiu. Foram todos investigados, julgados, condenados no balaio a partir do crime de multidão e assim por diante.

Agora o Supremo virou super garantista e o mesmo princípio, o mesmo critério deve ser utilizado, se imagina, para vetar a quebra do sigilo do próprio Lulinha.

Nós também descobrimos que o Daniel Vorcaro, entre outras coisas, dizia que ia colocar um site de notícias, que não fez exatamente o que ele queria, num inquérito de fake news. Quem comanda um inquérito de fake news? Alexandre de Moraes, que tinha com o banco, a sua esposa, um contrato de R$ 129 milhões. Ninguém vai investigar isso, não há nenhuma conexão entre o banqueiro que contrata a esposa do ministro e diz que vai colocar num inquérito de fake news, e essa contratação e um ministro que eventualmente vai julgar o caso lá adiante? E aí tem a conexão com o relato, o relatório, o despacho do ministro André Mendonça, sendo que altas autoridades da República eventualmente têm envolvimento neste caso.

E vamos descobrir também, nos próximos dias, se o ministro Dias Toffoli irá ou não se declarar suspeito para votar, na segunda turma, a prisão preventiva do Daniel Vorcaro, que era a mais óbvia possível.

Também descobrimos que a PGR, com todos os indicadores, dizendo que vai quebrar os dentes do jornalista, que vai dar um jeito numa outra funcionária, que pagava um milhão por mês para o tal do Sicário, uma espécie de máfia contratada pelo banqueiro, não havia urgência nem necessidade imediata da prisão preventiva do Daniel Vorcaro.

É muito estranho essa República, mas que nos leva a uma questão. Este caso do Banco Master faz com que o País enfrente um problema existencial. O País quer passar de fato a limpo a questão republicana, institucional e ética, doa a quem doer, ou nós vamos ingressar exatamente nesta lógica do garantismo de ocasião? No fundo, é uma das questões deste imenso caso que, na verdade, nós estamos apenas começando a conhecer do Banco Master.

 

 

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