5 de março de 2026
Politica

Ex-marqueteira do PT que fez negócio com Careca movimentou R$ 69 mi e cobrou dívida do partido

BRASÍLIA – A publicitária Danielle Miranda Fonteles, que trabalhou em campanhas do PT, movimentou R$ 69,4 milhões entre 2020 e 2025 em contas mantidas em três bancos, revelam informações encontradas na quebra de sigilo dela e obtidas pelo Estadão. Metade desse montante é referente a pagamentos feitos no período e a outra, a recebimentos.

Os dados mostram novos detalhes de transações entre ela e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como o principal operador do suposto esquema de descontos associativos ilegais em aposentadorias, e ilustram um atrito da publicitária com o PT da Bahia.

Procurada, a defesa de Danielle Fonteles afirma que todas as transações são legítimas, que a maior parte dos valores recebidos do Careca do INSS estão relacionados à venda de uma casa e que todas as explicações foram apresentadas ao Supremo Tribunal Federal (STF). (Leia mais abaixo.)

Publicitária Danielle Fonteles trabalhou em campanhas do PT
Publicitária Danielle Fonteles trabalhou em campanhas do PT

As informações bancárias fazem parte dos dados revelados com a quebra de sigilo da publicitária, que tem a relação com o Careca do INSS investigada pela CPI do INSS.

Em 13 de abril de 2023, ela recebeu em uma conta no Banco de Brasília (BRB) R$ 240 mil do diretório do PT da Bahia. A transferência é anotada como “DOACOES PARTIDO PT 2014”.

Em 2014, Danielle Fonteles trabalhou, por meio da sua agência Pepper Interativa, na campanha vitoriosa de Rui Costa (PT-BA) ao governo baiano e recebeu R$ 633,3 mil, segundo a Justiça Eleitoral.

Apesar do pagamento, ela foi à Justiça em 2016 alegando que não recebeu tudo o que lhe era devido. O PT baiano aceitou um acordo extrajudicial, conforme registrado no processo de cobrança da dívida encerrado em 2024, e pagou os R$ 240 mil que aparecem na conta do BRB.

O relatório indica que Fonteles recebeu, em dezembro de 2024, R$ 1 milhão da ACCA Consultoria, firma suspeita de ter sido usado pelo Careca do INSS para movimentar e ocultar dinheiro obtido ilicitamente no esquema.

Ela também recebeu, entre outubro de 2024 e abril de 2025, oito pagamentos via Pix de Camilo Antunes que somam R$ 5,08 milhões. Há ainda outros R$ 200 mil pagos via Spyder Consultoria, empresa de fachada ligada ao Careca do INSS.

Esses repasses já haviam sido revelados pela CPI do INSS e foram justificados por ela como pagamento de uma casa em Trancoso (BA) vendida ao empresário.

Agora, o levantamento do sigilo bancário mostra que ela recebeu do Careca, ao todo, R$ 6,28 milhões.

A defesa de Danielle Fonteles afirma que todo o pagamento está relacionado com uma casa que ela tinha em Trancoso e vendeu ao Careca do INSS. O imóvel custaria cerca de R$ 13 milhões, mas os pagamentos foram interrompidos depois que a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, bloqueou contas dele e houve um rompimento do acordo de compra e venda.

Ainda segunda a defesa, Danielle chegou a transferir a posse da casa para Antonio Camilo. Em depoimento à CPI do INSS, Aline Bárbara Mota de Sá Cabral, ex-secretária do Careca do INSS, confirmou a negociação da casa e disse que ela mesma chegou a ir ao local para treinar a governanta a pedido do chefe.

Danielle e Antonio criaram uma relação comercial depois que ela mudou-se do Brasil para Portugal, em 2019, e começou a trabalhar na gestão de empresas de brasileiros que queriam empreender no país europeu.

Ela prestou consultoria à World Cannabis, negócio criado por Antonio Antunes e para o qual também atraiu a empresária e lobista Roberta Luchsinger e o filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Os valores recebidos por ela por essa consultoria não aparecem na quebra de sigilo porque a transação teria sido para um banco de Portugal.

A quebra de sigilo bancário também revela duas transações financeiras de Danielle com o ex-deputado e ex-ministro das Cidades Alexandre Baldy. Em setembro de 2023, ela pagou a ele R$ 148,7 mil. Dois meses depois, recebeu R$ 13 mil.

A defesa dela diz que os repasses são referentes ao aluguel da casa de Trancoso para temporadas de fim de ano e que a regularidade dos pagamentos também foi demonstrada ao STF.

A reportagem também procurou o diretório do PT da Bahia, mas não houve retorno até a publicação deste texto.

 

 

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