Xandão prenderia Alexandre de Moraes e Toffoli
Herói das esquerdas e do anti-bolsonarismo em geral, o ministro Alexandre de Moraes, vulgo Xandão, criou um personagem bastante característico. Draconiano, implacável. Para ele, questões circunstanciais são provas finais. Afirmações políticas mais carregadas, mesmo em âmbito privado, seriam ameaças à democracia e precisariam de punição exemplar. Mensagens em que se permite apenas uma visualização ou audição, indícios graves de crimes.
Nesses critérios rigorosos aplicados por Xandão, os vândalos e golpistas do dia 8/1 de 2023 merecem mais de uma década de encarceramento. Empresários que aprovam um hipotético golpe de Estado, num bate-papo em grupo de WhatsApp, a receber uma batida policial. Há até um inquérito, que completou sete aniversários, para esse fim: colocar ordem, controlar esse pessoal de maneira definitiva. Inclusive, escreveu o ministro, pesava contra a tal “Débora do batom”, uma das participantes do 8/1, o fato de ter apagado suas mensagens de texto e áudio, um indício de que cometia ilícitos.
Quando Xandão condena, as penas são sempre elevadas. Nada pode ser deixado para trás, pois se trata de uma “defesa da democracia”. Era uma questão até mesmo civilizacional – uma luta do bem contra o mal, na qual ele estaria, claro, do lado do bem. Restaria à população agradecer para sempre.
Mas e se Xandão aplicar os mesmos critérios em tudo que o envolve com o liquidado Banco Master, do mafioso tupiniquim Daniel Vorcaro? Há relações mal explicadas de Alexandre de Moraes com o empresário, contratos de R$ 130 milhões envolvendo a esposa. Há uma compra e uma venda de um resort de alto luxo do colega Dias Toffoli que envolve a turma de Vorcaro. Há visitas pessoais na casa do criminoso. Eventos no exterior. Há até, como se sabe, mensagens apagadas pelo próprio ministro Moraes em conversa com o ex-banqueiro, na véspera da prisão do gângster banqueiro.
Se for uma pessoa com sensibilidade, Xandão pode estar vivendo uma espécie de crise existencial. Aplicará a própria régua para si mesmo e para Toffoli? Como? Afastando-se do caso, do Supremo, da vida pública? Vai pedir para a nossa sonolenta Procuradoria-Geral da República uma denúncia contra si mesmo? Vai pedir que o Senado abra contra ele e Toffoli o processo de impeachment?
Ou vai seguir em frente como se nada tivesse ocorrido? Vai inventar que é vítima de uma vingança sórdida daqueles que ainda apoiam o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por ele por tentativa de golpe de Estado?
São dilemas enfrentados pelo ministro. O correto é que ele dê a si mesmo o direito de defesa – mais do que concedeu aos que condenou. Para o distinto público – inclusive os que o santificaram – ele ainda não deu as devidas explicações, causando frustração e perplexidade. Fora aguentar os velhos bolsonaristas de grupos de WhatsApp que, nos últimos dias, não se cansam de repetir sobre Xandão. “Eu te disse, eu te disse”. A quem confiou no ministro por mais tempo do que o devido, só resta responder: “eu sei”.
