‘Ticket delegacia’ era propina para policias civis de São Paulo, diz inquérito
Conversas mantidas pelo empresário Cléber Azevedo dos Santos, um dos alvos da Operação Bazaar, mostram que empresários e doleiros montaram um esquema para pagar propinas a policiais civis por meio do que chamavam de “ticket delegacia”.

Cléber teve a prisão preventiva decretada pelo juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital. Endereços ligados a ele foram alvo de busca e a Justiça decretou o bloqueio de seus bens. A reportagem busca contato com a defesa. O espaço segue aberto.
Em conversa travada entre Cléber, que usava um número de telefone dos Estados Unidos, com um homem identificado como ‘Oda’ ou Odair, o empresário admitiu expressamente o pagamento de propina, mencionando repasses sucessivos a integrantes do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).
Segundo a PF, ‘Oda’ é Odair Alves da Silveira Filho, que também foi alvo de busca e de sequestro de bens. Ele é sócio da empresa Informatic Software Tecnologia e Consultoria Ltda.
Em um áudio que ele recebeu de Cléber em 8 de novembro de 2022, o empresário afirma. “Odair, anota aí para mim que eu dei 100 mil pro Deic esses dias, eu não sei se você anotou …. e ontem foi mais 110 … são 220 mil que eu dei pro Deic aí, anota aí, tá?.. isso daí você anota que é CLP, que o Paulo (Paulo Barão) vai ter que ajudar depois isso aí também”.
Paulo Barão é o empresário Paulo Rogério Silva que é sócio das empresas MAC Meios de Pagamento LTDA e Nickelpay Instituição de Pagamento LTDA, que, segundo os promotores, utilizam contas na Caixa Econômica Federal para dissimular e ocultar a origem de valores remetidos ao exterior.
Ainda de acordo com a Promotoria, entre 1.º de julho e 31 de dezembro de 2023, a empresa “auferiu o montante de R$ 97.108.498,61 e remeteu R$ 75.891.857,21 para a Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda. – empresa investigada pela Polícia Federal por compra ilegal de ouro, lavagem de dinheiro e evasão de divisas”.

‘6 pro Marlon, 30 Deic, Rodrigo 47 e Paulo 35′
Os promotores afirmam que os elementos de prova que indicam o pagamento de propina a integrantes do Deic são “reforçados por conversa envolvendo um homem identificado como Bruno Ramos Fernandes, apontado como colaborador do grupo e sócio “laranja” em empresa de fachada utilizada nas operações ilícitas”.
Em um diálogo, há menção a envio de valores para “despesas ticket delegacia”, com referência a remessa ao DEIC: “30 até sexta-feira Deic”.
Em áudio subsequente, há ainda o detalhamento da divisão dos montantes: “6 pro Marlon, 30 Deic, Rodrigo 47 e Paulo 35”.





Nesse mesmo sentido há uma outra mensagem enviada por Cléber, em 30 de abril de 2022, na qual ele determinou a Bruno que lançasse R$ 150 mil como despesa destinada ao Deic.
Para os promotores, trata-se de ”novo episódio indicativo de pagamento de vantagem indevida vinculada ao referido departamento policial”.
Foi por meio da instituição do chamado ‘ticket polícia’ que os promotores chegaram à conclusão de que havia um “padrão de corrupção sistêmica e reiterada aos policiais do Deic, notadamente da 3ª Dig (3ª Delegacia da Divisão de Investigações Gerais) e 4.ª Delegacia da Divisão de Crimes Cibernéticos”. E por isso foram pedidas as buscas nas delegacias onde atuam os policias sob suspeita.
Para os promotores, a situação recomendava a “concessão das medidas cautelares requeridas, como meio de coleta de prova e de fazer cessar as atividades criminosas”.
