Argumento de Moraes sobre diálogo com Vorcaro tem lacuna e não explica prints enviados por banqueiro
BRASÍLIA – O argumento apresentado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em nota à imprensa sobre conversas com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, apresenta lacunas e não explica a maior parte dos textos escritos no bloco de anotações do banqueiro para serem enviados por mensagem a interlocutores.

Segundo o magistrado, os arquivos da Polícia Federal compartilhados com a CPI do INSS seguem uma estrutura na qual os prints de texto são armazenados nas mesmas pastas em que constam os dados dos contatos das pessoas para quem o banqueiro os enviou.
Contudo, dos sete prints registrados com data de 17 de novembro de 2025, dia da primeira prisão de Vorcaro, quatro estão em pastas sem nenhum outro documento. Entre eles, o print da mensagem na qual o banqueiro escreveu: “Fiz uma correria pra tentar salvar”.

Só três estão em pastas que também carregam arquivos de contatos de outras pessoas.
A reportagem conversou com peritos da Polícia Federal sobre a alegação de Moraes. Eles disseram, sob condição de anonimato, que o fato de os arquivos estarem ou não numa mesma pasta não tem relação com o vínculo entre eles nas conversas.
O programa usado pela PF para organizar os dados, que foi compartilhado com a CPI para que os parlamentares fizessem as próprias análises, tem uma forma própria de organização dos arquivos em pastas brutas.
Segundo os peritos, em geral os arquivos se agrupam quando o hash (sequência de vários dígitos que formam uma espécie de “impressão digital” do arquivo) iniciam da mesma forma.
A argumentação do ministro só se sustenta quando os arquivos são consultados fora do programa necessário para a leitura deles. Ou seja, individualmente nas pastas.
O programa é o IPED (Indexador e Processador de Evidência Digital), desenvolvida a partir de 2012 por técnicos da Polícia Federal. Ele é de código aberto e está disponível desde 2019, segundo a documentação oficial publicada na plataforma GitHub.

Esse programa é usado pela PF para extrair e organizar dados de celulares confiscados em operações. Ele tem, em sua interface, áreas que apresentam visualizações de “vínculos” entre arquivos encontrados nos aparelhos quando o programa encontra correlação suficiente.
No caso dos prints de Vorcaro, não há apontamento, no IPED, de vínculos dos prints de Vorcaro com nenhum interlocutor.
O conjunto de dados compartilhados pela PF com a CPI do INSS, aos quais o Estadão teve acesso, tem 2.164 arquivos e 475 pastas. Os prints estão em uma parte mais restrita, com 157 pastas e 206 arquivos.
Essas pastas têm como nomes letras de A a F e números de 0 a 9. E os arquivos são nominados com grandes sequências de números, como 6554B090290A78B3344EA08C00D683C7.

Pelo parâmetro adotado por Moraes, a destinatária da mensagem em que Vorcaro questiona “alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, enviada às 17h26 do dia 17 de novembro de 2025, quando ele foi preso, seria a advogada Viviane Barci de Moraes, sua mulher, e não o próprio ministro.

A reportagem não conseguiu contato com ela. Viviane e os filhos de Moraes foram contratados por Moraes por um valor de R$ 129 milhões para a atuação dos interesses do banqueiro junto no BC, na Receita e no Congresso.

Essa anotação de mensagem se repete em uma outra pasta do arquivo bruto, fora do IPED, na qual consta um arquivo que é o contato do senador Irajá (PSD-TO).
Em nota enviada por meio da assessoria de imprensa, o senador disse que não trocou mensagens com o banqueiro. “Nunca houve contato entre o senador Irajá e Daniel Vorcaro. Nenhuma mensagem foi enviada, nenhuma mensagem foi recebida e não existe qualquer relação entre eles”, frisou.
No acesso fora do IPED, o arquivo do contato do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, está em uma pasta que também tem um print com o texto: “Bom dia tudo bem? Estou tentando antecipar com investidores aqui (…) se tiver alguma novidade vamos falar”. No caso de Rueda, o programa de perícia digital compartilhado com a CPI também não indica vínculo entre esses dois arquivos.
Procurado, Rueda disse que não recebeu mensagens de Vorcaro.
A extração dos dados do celular de Vorcaro também encontrou uma foto em que aparecem três cheques de R$ 82,5 mil, dos quais um datado de janeiro de 2019 e dois de abril daquele mesmo ano.
A foto está numa pasta na qual também consta um arquivo de contato do do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que também é citado em trocas de mensagens entre Vorcaro e a ex-namorada, a influenciadora Martha Graeff.
O IPED não fez ligação entre Ciro e os cheques. Procurado, o senador ainda não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto.

Preso novamente na última quarta-feira, 4, Vorcaro travava conversas sensíveis a partir de anotações feitas no bloco de notas do celular e enviadas como imagem de visualização única, que desaparecem depois de serem abertas por uma vez.
