7 de março de 2026
Politica

Celebrar é resistir: as mulheres avançaram, mas o Brasil ainda nos deve igualdade

Março nos convida à celebração. Mas, aos 50 anos, escolho também a reflexão. Celebrar a mulher sem encarar a realidade brasileira seria um gesto superficial. Porque se é verdade que avançamos, também é verdade que ainda enfrentamos desigualdades estruturais que insistem em sobreviver ao tempo e às estatísticas.

As mulheres brasileiras estudaram, se qualificaram e ocuparam espaços que por décadas lhes foram negados. Hoje somos maioria no ensino superior, segundo dados do IBGE. Temos, em média, mais anos de estudo do que os homens. Estamos nas universidades, nas especializações, nos mestrados, nos doutorados. A capacitação deixou de ser barreira. No entanto, a equação não fecha: mesmo mais escolarizadas, seguimos recebendo, em média, cerca de 20% a menos do que os homens. Nossa participação na força de trabalho permanece inferior à masculina. E, quando olhamos para os cargos de alta liderança, a presença feminina ainda é desproporcional ao talento disponível.

Isso revela algo que vai além dos números: o problema já não é acesso à educação. É cultura. É estrutura. É resistência à redistribuição real de poder.

Celebrar, portanto, não é ignorar esse cenário. É afirmar que, apesar dele, seguimos. Seguimos empreendendo e o Brasil já registra milhões de mulheres à frente de seus próprios negócios. Seguimos chefiando lares muitas vezes sozinhas. Seguimos sendo maioria nas salas de aula e, ainda assim, tendo que provar competência em dobro no mercado. Seguimos ocupando espaços que historicamente nos foram negados, mesmo quando eles parecem desenhados para nos excluir.

Mas as principais transformações nem sempre aparecem nas manchetes. Elas acontecem nos detalhes: na mulher que retoma os estudos depois dos 40, na que rompe um ciclo de violência, na que muda de carreira aos 50, na que aprende a dizer “não” após uma vida inteira dizendo “sim” para caber nas expectativas alheias. Essas vitórias são silenciosas, mas são revolucionárias.

Ao longo da minha trajetória, especialmente à frente do Conexão das Mulheres, ouvi histórias que confirmam algo essencial: nenhuma mulher chega longe sozinha. O verdadeiro avanço feminino não é individual, é coletivo. Ele nasce da escuta genuína, da rede de apoio, da mentoria, da troca honesta. Empoderamento não é palavra de efeito, é prática diária de reconhecimento e fortalecimento mútuo.

Ainda vivemos em um país onde a violência de gênero é uma realidade alarmante. Onde mulheres são julgadas pela aparência antes de serem avaliadas pela competência. Onde maternidade pode significar estagnação profissional. Onde a ambição feminina ainda incomoda. Ignorar isso seria romantizar a realidade.

Mas também seria injusto negar o quanto caminhamos. Há 50 anos, muitas de nós sequer teríamos as oportunidades que hoje consideramos básicas. A transformação é concreta. O avanço é real. O que precisamos agora é acelerar o passo.

Celebrar o Mês da Mulher é reconhecer essa trajetória sem ingenuidade e sem conformismo. É honrar as que vieram antes, sustentar as que estão ao lado e abrir caminho para as que virão. É entender que igualdade não é concessão: é direito. E que desenvolvimento econômico sustentável passa, necessariamente, pela inclusão plena das mulheres nos espaços de decisão.

Aos 50, celebro as batalhas que venci, as quedas que me ensinaram e as mulheres que caminham comigo. Celebro a coragem de recomeçar e a maturidade de não aceitar menos do que merecemos. Mas celebro, sobretudo, a consciência de que ainda há trabalho a fazer.

Celebrar é resistir. Celebrar é continuar lutando. Celebrar é não se calar.

Porque, quando mulheres avançam, o país avança com elas.

 

 

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