Por que elas buscam mais terapia
A maior parte dos consultórios em saúde mental está ocupada pelas mulheres. E isso não está em lugar nenhum à toa. Este movimento é a expressão de uma exposição à dor em sua história, que deixou marcas no corpo e na memória.
Em um conteúdo recente, apresentei o roteiro da terapia INSIDELIC. Ações sinérgicas, que começam pela identificação das manchetes negativas de sua história pessoal, vão até o núcleo do trauma e finalizam com autocompaixão, autocondolência e reintegração psíquica. Antes de qualquer tecnologia, existe um dado anterior ao método ou técnica: são elas que mais procuram ajuda.
Segundo Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres têm quase 2 vezes mais prevalência de ansiedade e depressão do que os homens. Estudos internacionais também mostram probabilidade maior de se desenvolver transtorno de estresse pós traumático quando o evento envolve violência interpessoal.
No Brasil, o que aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública é que é a maioria das vítimas da violência sexual e da violência doméstica é composta por mulheres. Quando me refiro a trauma, não me refiro apenas ao momento do ocorrido e sim como ele fica gravado no sistema nervoso. Trauma é a memória que não é metabolizada.
Por que elas possuem maior acúmulo de experiências assim? Existem fatores biológicos, psíquicos e culturais. No meio social, existe uma exposição frequente às relações de poder assimétricas, ao assédio possivelmente, à desigualdade salarial, à super carga mental e a dupla jornada. Tais experiências produzem estresse crônico.
A neurociência comprova que exposições sucessivas à ameaça ou humilhação ativam continuamente estruturas cerebrais, como amígdala. Quando essa ativação se torna recorrente, o organismo começa a operar no modo vigilância. Desse estado advêm ansiedade crônica, dificuldade para relaxar, culpa, vergonha e do esgotamento.
Muitas dessas emoções são ensinadas desde pequeno. Meninas aprendem a agradar, as adolescentes são orientadas a não exagerar, e adultas assumem a responsabilidade emocional por famílias e ambientes profissionais. É assim que o corpo vai registrando cada uma dessas camadas.
Temos outro ponto relevante. O homem tende a buscar menos auxílio em saúde mental. Os padrões culturais ligados à masculinidade, como repressão afetiva, resistência em mostrar vulnerabilidade, aparecem como barreiras ao cuidado. Ultrapassando a fragilidade feminina, trata se de uma exposição a maior risco e, ao mesmo tempo, maior permissão social para buscar amparo.
Sinto que existem certas especificidades no processo terapêutico. Muitos traumas femininos estão associados a experiências de natureza relacional: abandono, traição, abuso emocional, violência doméstica, a maternidade hiperestressada e silenciamento.
Essas experiências atingem o sentido do valor da mulher, o safety. Intervenções voltadas à regulação fisiológica, à definição de limites e à recuperação da autoestima se tornam centrais. No roteiro que utilizo, existe um clique, o acionar da raiva como emoção protetiva. A expressão dessa energia foi reprimida durante séculos. A raiva diz que um limite foi ultrapassado. Parte da cura é retomar essa capacidade sem culpa.
Quando se fala em Dia das Mulheres, geralmente, eu fico pensando em saúde mental. Se elas apresentam índices de ansiedade, depressão e violência mais elevados, o tratamento do trauma não é uma questão secundária. A terapia deixa de ser luxo e se torna uma ferramenta de reorganização psíquica e social.
Quando uma mulher regula seu próprio sistema nervoso, redefine limites e interrompe padrões de abuso, não altera apenas sua própria história. Altera dinâmica familiar, profissional, intergeracional. Não é vitimização coletiva. É contexto. E contexto faz diferença.
