11 de março de 2026
Politica

Buzzi cita ‘dificuldades de mobilidade e equilíbrio’ e pede para STJ arquivar caso de assédio sexual

BRASÍLIA – O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Buzzi negou em defesa prévia apresentada à Corte a acusação de que cometeu assédio sexual contra duas mulheres e pediu o arquivamento do caso. O documento foi protocolado para instruir a sessão de julgamento marcada para o dia 14 de abril, na qual os ministros decidirão em plenário se transformam a sindicância em Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra Buzzi. Ao final, esse processo pode resultar em sua demissão – ele já está afastado cautelarmente.

Ministro Marco Buzzi, do STJ, alvo de apurações no tribunal por supostos crimes sexuais
Ministro Marco Buzzi, do STJ, alvo de apurações no tribunal por supostos crimes sexuais

A defesa afirmou que as acusações se basearam apenas nos depoimentos das vítimas e de pessoas relacionadas a elas, sem a corroboração de provas independentes. Disse ainda que o ministro tem dificuldade de locomoção e usa bengala como consequência de um acidente grave de moto ocorrido há 25 anos. Para os advogados, a condição física debilitada torna inverossímil parte dos relatos imputados ao ministro. As vítimas contestam e dizem, por meio de seus representantes legais, que a mobilidade reduzida do ministro não impediu as ações de assédio por parte dele.

O Estadão teve acesso ao documento, que foi compartilhado com todos os ministros da Corte para embasar o julgamento. Procurada, a defesa de Buzzi afirmou que não iria se manifestar, porque o processo tramita sob sigilo.

Na praia

A sindicância apura dois casos diferentes, um de importunação e outro de assédio sexual. A primeira denúncia foi feita pela filha de um casal de advogados amigos do ministro. A família passava um final de semana na casa de praia dele, em Santa Catarina. No depoimento, a vítima relatou que foi agarrada à força pelo ministro dentro do mar. Com base em laudos médicos, a defesa sustenta que Buzzi não teria capacidade física para fazer isso.

“Um senhor de quase 70 (setenta) anos com seriíssimas e sabidas dificuldades de mobilidade e equilíbrio – com prótese em toda a extensão de uma das pernas e no braço esquerdo e com reconhecida e incontroversa dificuldade de adentrar um mar tormentoso, em uma ‘praia de tombo’, com ondas fortes e mudanças abruptas de profundidade, em local com falta e/ou dificuldade de dar pé – não teria condições físicas de coagir e reter uma mulher jovem, de 18/19 anos de idade, forçando-a fisicamente, portanto, contra a sua vontade, por mais de uma vez, a submeter-se à sua lascívia”, escreveram os advogados.

Em outro trecho a defesa diz que a versão da vítima é “inverossímil”, porque seria incompatível com “o quadro clínico” do ministro. “Se não a diferença de vigor físico, idade, mobilidade e equilíbrio, as condições naturais e ambientais do local se apresentam obstáculo intransponível para a dinâmica dos fatos relatada” pela vítima, diz o documento.

Questionados sobre esses argumentos, os advogados da vítima afirmaram que a mobilidade de Buzzi dentro do mar torna-se mais fácil porque a água suporta o peso do corpo e reduz o esforço nos movimentos.

Os advogados ressaltam que ela “jamais teria motivos para fazer qualquer tipo de falsa acusação”. “Enquanto advogado da vítima, soube pelos meios de comunicação da equivocada e infrutífera tentativa de desqualificar as palavras da minha constituída. Lamentável, para se dizer o mínimo, ainda mais que jamais teriam motivos para fazer qualquer tipo de falsa acusação contra alguém que era, até então, do convívio da família. Porém, a verdade é única e além de todos os que foram ouvidos confirmarem os fatos, outros documentos corroboram a acusação”, afirmou o advogado Daniel Bialski, que representa a família.

No gabinete

O segundo caso é de uma funcionária terceirizada do STJ que atuava como assessora do gabinete de Buzzi. Nos bastidores, esse caso é considerado mais grave pelos demais ministros porque o suposto assédio teria ocorrido nas dependências do tribunal.

Em depoimento ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a servidora relatou cinco episódios em que teria sido assediada sexualmente e ainda um outro de assédio moral durante o período no qual trabalhou no gabinete. Outros funcionários do gabinete confirmaram ao CNJ que, na época, ouviram os relatos da funcionária sobre o assédio, mas não chegaram a ver os atos em si. Ela chegou a contar que, por causa do estresse e de picos de pressão ocasionados pela situação, sofreu efeitos colaterais em sua saúde e perdeu parte da visão em um dos olhos.

A servidora entregou uma gravação na qual ela contava um dos episódios de assédio a uma das funcionárias do gabinete. Em seu depoimento, ela afirmou que não fez uma denúncia formal por ter receio de sofrer retaliações do ministro e ser demitida.

A defesa de Buzzi contestou os relatos. Citou que, em um dia específico no qual a servidora disse ter sido assediada, ele teve um evento externo e passou apenas rapidamente no STJ no início da manhã. “No dia 10 de novembro de 2025, o Sindicado (Buzzi) participou de evento no Conselho de Justiça Federal que se iniciava às 9h da manhã, conforme convite, ofício e fotografias com os participantes do evento, bastante conhecidos na área jurídica”, disse a defesa. A servidora, entretanto, havia relatado em depoimento que o episódio de assédio ocorreu no final do dia, após o ministro ter retornado desse evento.

Ainda segundo os advogados, o ministro costumava chegar ao gabinete entre 10h30 e 11h e, nesse horário, outros assessores também estavam presentes no local, e o ministro não costumava ficar a portas fechadas com nenhum assessor. “Há, ainda, que se apontar que não são verdadeiras as declarações de que o Sindicado (Buzzi) costumasse ficar somente em companhia dela no gabinete pelas manhãs. Esclareça-se que, nos dias em que lecionava, o Sindicado apenas chegava ao gabinete após as aulas”, afirmam.

Questionada, a defesa da servidora disse que ela começou a pedir para uma colega do gabinete chegar mais cedo após episódios de assédio sofridos.

A defesa de Buzzi ainda anexou imagens de confraternizações da equipe do gabinete nas quais a funcionária aparecia ao lado ou próxima do ministro para sustentar a tese de que não havia desconforto entre eles. “A suave expressão facial (…) revela conforto, confiança e pertencimento, em tudo incompatível com as terríveis dores do espírito descritas em declarações”, afirmam os advogados.

No depoimento ao CNJ, a servidora alegou que não denunciou o comportamento do superior antes por medo de ser demitida. A defesa cita, no documento, que ela poderia ter esse temor por outro motivo: o ministro havia pedido para ela usar trajes mais formais no trabalho.

“Nada obsta crer que a possível motivação (…) repousava no receio de vir a ser demitida – ou mesmo transferida de gabinete – notadamente em razão de repetidas advertências feitas pelo ministro e alertas de outros servidores sobre a utilização de trajes inadequados e desconforme a exigida formalidade dos tribunais”, diz a peça.

“Reiteradas vezes, (…) foi advertida sobre a necessidade de utilização de vestimentas formais, o que parecia lhe incomodar diante da persistência em desobedecer às regras do Tribunal, trajando-se de modo incondizente com a disciplina formal exigida de todos os servidores”, concluem os advogados de Buzzi.

Os trajes citados pela defesa de Buzzi, conforme as fotos anexadas, são vestidos longos que deixam os braços à mostra.

Cerceamento à defesa

Além do mérito das acusações, os advogados também argumentaram que os depoimentos das vítimas e das testemunhas foram colhidos sem a presença da defesa e, por isso, deveriam ser anulados e ouvidos novamente, para que a defesa pudesse fazer questionamentos e participar da produção de provas.

“A mera instauração do processo administrativo disciplinar, por si só, já é suficiente para acarretar graves danos à reputação e à dignidade do Sindicado (Buzzi), exigindo-se, portanto, um lastro probatório mínimo que, no presente caso, inexiste”, escreveram os advogados.

“Assim, sem embargo do entendimento da especial relevância conferida à palavra da vítima nos crimes de violência de gênero, essa deve vir amparada de demais elementos de prova, o que não é o caso dos autos”, concluíram.

 

 

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