Os pontos críticos na defesa do Brasil que os militares viram com a guerra no Oriente Médio
Oficiais do Estado-Maior do Exército (EME) produziram um documento de análise sobre o conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã e encontraram seis matrizes de risco: saturação do espaço aéreo por drones, o colapso logístico por falta de munição, a paralisia decisória por desinformação, o corte orçamentário de programas estratégicos, a limitação na antecipação de ameaças e o isolamento geopolítico regional.

Para cada um desses riscos, os militares verificaram sua probabilidade e seu impacto, bem como sugeriram uma estratégia de mitigação. Assim, a saturação do espaço aéreo brasileiro com drones em caso de ataque de uma potência estrangeira foi classificada como uma probabilidade alta e seu impacto, como crítico.
Para enfrentar essa realidade, o documento sugere a “aquisição de sistemas antidrones portáteis, particularmente, com guerra eletrônica para a defesa de ponto e desenvolvimento de TTP antidrones (do inglês Tactics, Techniques, and Procedures, ou Táticas, Técnicas e Procedimentos) usados para detectar, identificar, rastrear e neutralizar veículos MALE UCAV, como os TB2 turco ou drones como Shared 136 iraniano.
Outros dois pontos foram considerados de probabilidade alta e de impacto crítico: a paralisia decisória por desinformação e o corte orçamentário. Para enfrentar a primeira, seria necessária a criação de um núcleo interagência de “resiliência e pronta resposta internacional, além de fortalecimento da defesa cognitiva”.

Em relação aos cortes, o documento sugere a necessidade de blindagem jurídica e institucional dos projetos estratégicos das Forças Armadas e o aumento da porcentagem do PIB gasta na Defesa. Atualmente, o País consome cerca de 1,1% do PIB na área. Os comandos da três Forças querem que esse número suba para 2%, enquanto o presidente Donald Trump pressiona a Europa para que esse índice chegue a 5%.
Os militares que estudaram o conflito no Oriente Médio alertaram ainda sobre o risco do colapso logístico por falta de munição se o País entrar em guerra. No ano passado, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou que o Brasil teria munição para apenas 30 dias de um conflito moderno. No estudo feito pelos oficiais do EME, esse risco é considerado médio, mas seu impacto é crítico.
Para contorná-lo seriam necessários novos contratos de longo prazo com a Base Industrial de Defesa para formar estoques estratégicos de munição pesada, um produto que está em falta em todo mundo em razão dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.

Sobre a capacidade de antecipar possíveis ameaças, os militares consideraram que uma falha nesse campo tem risco médio, mas seu impacto é alto, algo que poderia ser mitigado com investimentos em inteligência militar. Por fim, entre os riscos estudados, está o do isolamento regional, cuja probabilidade foi considerada baixa e seu impacto médio. Para evitá-lo, os oficiais recomendam o aumento da “diplomacia militar”, com a participação em exercícios combinados regionais“.
As lições aprendidas
Entre as lições do conflito listadas no documento ao qual a coluna teve acesso está a primazia da defesa antiaérea e antidrone para a execução de uma estratégia antiacesso/negação de área (A2/AD). “Defesas tradicionais colapsam rapidamente contra ataques de saturação”, afirma o documento, que reconhece a “vulnerabilidade” do Brasil para negar o espaço aéreo a drones e outros vetores modernos.
Também foi analisada a capacidade de dissuasão de longo alcance do País. A análise afirma que, no conflito moderno, a troca de ataques diretos reforça que a dissuasão só é crível “se houver capacidade real e demonstrada de atingir o território adversário em profundidade, impondo custos inaceitáveis” ao inimigo.

É aqui que, para os militares, entra o problema da instabilidade orçamentária que paralisa programas estratégicos das Forças Armadas. O custo de interceptar mísseis e projetar força é “colossal”. “Nações que expandem seus compromissos militares além de sua base econômica entram em colapso.” Ou seja, a falta de recursos afeta o nível de prontidão das Forças, dificultando uma resposta em caso de conflito e também a mobilização nacional.
O documento segue analisando as operações psicológicas e o domínio do campo informacional. Ele caracteriza assim o problema nessa área: “A incitação direta para que a população se rebele para fraturar a coesão interna do Estado adversário, atacando seu centro de gravidade moral”. E reconhece como vulnerabilidade a “fragilidade institucional frente a campanhas de desinformação e narrativas”.
Os militares analisaram ainda a resiliência de infraestruturas críticas e o apoio ao Estado. De acordo com o documento, a guerra no Oriente Médio mostrou ataques focados em alvos militares e de segurança que “visam paralisar a capacidade de resposta sistêmica do inimigo, colapsando toda a rede de defesa e a sociedade”

Para eles, a vulnerabilidade identificada nesse campo no Brasil inclui a dependência de infraestruturas civis frágeis, pouco protegidas e com Defesa Civil limitada. Ela é agravada por outro problema: os gargalos da autonomia logística e as vulnerabilidades da Base Industrial de Defesa.
Segundo o documento, no Oriente Médio o impacto do isolamento por sanções econômicas e a dependência de cadeia globais demonstraram serem fatais quando não se possui uma indústria de defesa resiliente. Ou seja, a dependência externa e os baixos estoques de munição e insumos estratégicos são fatais para a Defesa de um país e afetam o Brasil.
O documento detalha ainda a importância de uma rede de inteligência estratégica e de consciência situacional. “A precisão cirúrgica da operação dependeu de uma rede de inteligência robusta com diversas fontes de inteligência para identificar alvos dinâmicos em tempo real.”

Aqui, os analistas do EME também verificaram uma deficiência no Brasil: “A falta de integração interagências e de uma capacidade de inteligência preditiva robusta fragilizam o Estado diante de ameaças híbridas e geopolíticas, afetando a soberania”.
Diante desses desafios, os militares sugerem a integração de sistemas de detecção e interceptação com o sistema de mísseis e foguetes e radares de vigilância, com soluções para combater drones para a proteção em nosso território, os pontos sensíveis e a mobilidade de tropas. É preciso ainda capacitar pessoal para a transformação do Exército para a era dos drones.
O documento conclui que o Exército deve priorizar a nacionalização de componentes e diversificação de fornecedores para seus programas estratégicos e para a produção de munições, blindados e sistemas de comunicação a fim de assegurar sustentabilidade de operação em qualquer cenário e lugar, como a Amazônia, e de forma integrada com a Marinha e a Força Aérea.

Entre os programas que podem ajudar na capacidade de dissuasão do Exército está o do Míssil Tático de Cruzeiro-300 (MTC-300), que o EME espera retomar com a reabertura da Avibrás ainda neste mês. A solução do problema Avibrás – mais uma vez prometida –pode ser apenas pensamento positivo, mas o projeto do MTC-300 não deixa de ser importante por isso. O Exército, conforme a coluna mostrou, entregou ao governo um estudo com o custo para sua modernização entre 2026 e 2040: R$ 456 bilhões para garantir o mínimo de dissuasão na era dos drones.
O documento não esgota todas as reformas e medidas necessárias para a Defesa Nacional. Aborda pontos, alguns deles dramáticos, como a incapacidade de o País se defender de enxame de drones ou de mísseis. As autoridades civis deveriam estudar sobre o tema, fazer reparos, cobranças e estabelecer metas e recursos. Tudo debaixo do controle e da provação da sociedade. Assim é que devia ser antes que um bandido qualquer arrombe a nossa casa.
