12 de março de 2026
Politica

Filho de Ibaneis comprou duplex de R$ 9,2 milhões financiado pelo BRB

BRASÍLIA – O advogado Caio Carvalho Barros, de 27 anos, filho do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), comprou, em março de 2025, um apartamento duplex em Brasília por R$ 9,2 milhões com financiamento do Banco de Brasília (BRB) – banco controlado pelo DF que está no centro de uma crise por operações com o liquidado Banco Master.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS apura se há relação entre essa negociação e a entrada do PicPay, empresa do grupo J&F, no governo Ibaneis (leia mais abaixo). O duplex pertencia a José Antônio Batista Costa, presidente da J&F Participações, presidente do Conselho de Administração do PicPay e sobrinho dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

O imóvel foi vendido a um empresário, que depois vendeu para o filho do governador. Caio Barros comprou o apartamento após seu escritório ter vendido um honorário de R$ 38 milhões para um fundo ligado à Reag Investimentos, investigada no caso do Banco Master.

Ibaneis Rocha e Caio Carvalho Barros.
Ibaneis Rocha e Caio Carvalho Barros.

Ao Estadão, Caio Barros disse na terça-feira, 10, que comprou o imóvel com ajuda do pai e da mãe, sem relação com negócios do escritório, e que o financiamento foi feito com o BRB por oferecer as melhores condições de crédito. Hoje, ele mora no imóvel.

O apartamento pertenceu a um executivo do Grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e depois foi vendido a outro empresário antes de ser comprado pelo filho do governador.

“José Antonio Batista Costa nunca negociou qualquer imóvel com Caio Carvalho Barros”, disse a empresa, em nota enviada nesta quarta,11 (leia mais abaixo).

As operações de compra e venda

O filho de Ibaneis comprou o apartamento do empresário Claudio Mohn França, que por sua vez obteve o imóvel oito meses antes em uma negociação com José Antônio Batista Costa, executivo da J&F, presidente do Conselho de Administração do PicPay – o banco digital do conglomerado – e sobrinho dos irmãos Batista.

O apartamento é um duplex de 467 metros quadrados no Noroeste, um bairro de Brasília que concentra novos empreendimentos imobiliários de alto padrão e atualmente é uma das áreas mais valorizadas da capital federal.

Na escritura, ficou declarado que o filho de Ibaneis pagou R$ 3.346.000 diretamente a Claudio Mohn França. Os outros R$ 5.904.000 foram financiados pelo BRB, com parcelas de R$ 64.844,69 mensais.

O empresário que vendeu o duplex a Caio Barros, Claudio Mohn França, havia se tornado dono do imóvel oito meses antes, em julho de 2024. Ele recebeu o apartamento como parte do pagamento feito por José Antônio Batista Costa pela venda de uma casa por R$ 28 milhões, no Lago Sul, outro bairro nobre da capital federal.

Dos R$ 28 milhões, o executivo da J&F repassou a Claudio França R$ 2,4 milhões por transferência bancária e R$ 15,5 milhões em prestações pagas a partir de setembro de 2024. Claudio França recebeu o duplex do Noroeste como quitação dos R$ 10 milhões remanescentes. O imóvel pertencia a José Antônio Batista Costa desde setembro de 2023, quando o comprou por R$ 5,5 milhões, na planta.

Em março de 2025, oito meses depois de receber o duplex em troca de um pagamento de R$ 10 milhões, Claudio França vendeu o apartamento a Caio Barros, sobrinho de Ibaneis, por R$ 9,2 milhões.

Caio Barros afirmou que a compra do apartamento não tem qualquer relação com o negócio com a Reag – investigada no caso Master – ou com outros contratos do escritório e declarou que obteve doações do pai e da mãe para reunir o valor da entrada do imóvel.

Ele disse que o apartamento foi o primeiro dos três que visitou quando procurava uma residência e classificou o apartamento como “um espetáculo”. “Minha mãe me deu um pedaço, meu pai me deu outro pedaço. Nenhum dos valores veio do escritório, foi completamente fora da escritório. Eu paguei, financiei o saldo e estou pagando as parcelas hoje”, disse Caio Barros ao Estadão.

Ele declarou que conhece o executivo da J&F “da vida”, mas não sabia que José Antonio Batista Costa havia sido dono do duplex. O advogado afirmou que conheceu Claudio França por meio da corretora.

“Quando eu saí de casa, foi o primeiro apartamento que eu fui olhar e eu achei o apartamento um espetáculo, tanto é que foi o que eu comprei para morar efetivamente.” Segundo o advogado, nas propostas apresentadas pela corretora, a do Banco de Brasília era que ofertava os melhores juros. “Nunca tive tratativa direta com o BRB.”

Claudio Mohn França afirmou ao Estadão, na terça-feira, 10, que trabalha com compra e venda de imóveis há anos, mas que essa negociação só ocorreu depois que uma grande imobiliária de Brasília indicou o comprador. Ele disse que não teve negociação direta com Caio Barros e que só depois da venda tomou conhecimento de que se tratava do filho do governador.

“Adquiri o apartamento no Noroeste em 2024. Durante esse período, o imóvel ficou anunciado com diversas imobiliárias de Brasília, inclusive com a própria construtora responsável pelo prédio, mas sem sucesso”, disse.

Em nota, a J&F informou que a valorização de um ano a outra é explicada pelo fato de o apartamento ter sido comprado na planta e ter recebido acabamentos, mobília e decoração antes de ter sido utilizado como parte do pagamento da compra da casa do empresário em Brasília, cidade onde nasceu e possui família.

“O apartamento foi transferido diretamente ao vendedor da casa, conforme escritura pública”, frisou.

PicPay usou relação com governo do DF para parceria com INSS

O PicPay, cujo conselho é presidido por José Antônio Batista Costa, assinou um termo de compromisso com o governo Ibaneis em 16 de setembro de 2024 para oferecer um serviço de “antecipação salarial” a 200 mil servidores do governo do DF.

A relação virou alvo de representação no Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) – que analisa, entre outras coisas, se o termo de compromisso deveria ter sido celebrado após chamamento público.

A parceria foi possível graças a um decreto baixado por Ibaneis Rocha em 7 de agosto de 2024, que autorizou o governo a firmar convênios relacionados a consignações. Em seguida, o banco digital usou a parceria com o governo distrital para apresentar ao INSS um serviço de empréstimo consignado, possibilitando a ampliação do volume de clientes.

Em email enviado ao gabinete do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, em 4 de novembro de 2024, o PicPay relatou que concluiu o “bem-sucedido credenciamento” junto ao governo de Brasília e, a partir disso, convidou a autarquia federal a “considerar o credenciamento junto à nossa instituição, assegurando que todo o processo foi validado pelos setores jurídicos competentes”.

Batizado de “Meu INSS Vale+”, o programa operado pelo PicPay foi suspenso após descumprimento de normas que proíbem a cobrança de taxas não autorizadas. A CPI do INSS apura se há relação entre a entrada do PicPay no governo de Ibaneis Rocha e a negociação do imóvel comprado por seu filho.

Em depoimento à comissão, o sucessor de Stefanutto, Gilberto Waller Junior, criticou o Vale+. Ele explicou que, em fevereiro de 2025, a parceria foi reformulada para permitir que o PicPay adiantasse até R$ 450 aos segurado, com taxa de até 10%.

“Esse programa não tem previsão de desconto na lei, não tem nenhuma forma de sustentabilidade, até mesmo pela questão do autoendividamento. Imagine que o nosso segurado tem um salário, tem uma aposentadoria e uma pensão de valor médio de R$1,8 mil.

“A margem do nosso consignável fica até 45%. Se tirar mais R$ 450 dele, ele não tem dinheiro para sobreviver ao final do mês”, afirmou Waller Junior, que assumiu a autarquia em abril de 2025, após o afastamento de Stefanutto.

A J&F foi citada na CPI do INSS por causa de pagamentos de pelo menos R$ 28,6 milhões a empresas que repassaram os recursos a pessoas ligadas ao empresário e lobista Danilo Trento. Há pedido para convocação de José Antonio Batista Costa que ainda não foi apreciado.

Segundo a CPI, há “nexo temporal” entre esses pagamentos e a criação do Programa Meu INSS Vale+, lançado pela autarquia previdenciária durante a presidência de Alessandro Stefanutto.

A suspeita da cúpula da CPI é a de que os pagamentos viabilizaram a criação do programa que atendia a interesses do PicPay. A J&F que contratou empresas de consultoria para serviços que foram efetivamente prestados e que rescindiu os contratos assim que surgiram menções a Danilo Trento na CPI.

 

 

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