27 de março de 2026
Politica

Jürgen Habermas (18.6.1929-14.3.2026)

O filósofo alemão Jürgen Habermas
O filósofo alemão Jürgen Habermas

O mais famoso integrante da chamada “Escola de Frankfurt” faleceu aos 96 anos, depois de uma vida de estudos e disseminação do conhecimento. Foi assistente de Theodor Adorno (11.9.1903-6.8.1969) e se tornou um dos maiores pensadores dos séculos XX e XXI.

Explorou a tradição da teoria crítica e do pragmatismo e estudou a democracia sob os ângulos da racionalidade comunicativa e esfera pública. Na introdução ao seu livro “Entre naturalismo e religião”, afirma que duas tendências contrárias caracterizam a situação cultural contemporânea: a proliferação de imagens de mundo naturalistas e a influência política crescente das ortodoxias religiosas.

Se de um lado impressiona o progresso da biogenética e as pesquisas sobre o cérebro e a robótica, a gerar esperanças terapêuticas e eugênicas, de outro se constata uma politização, em escala mundial, de comunidades de fé e de tradições religiosas.

São tendências intelectuais que caminham em sentidos opostos. O naturalismo é consequência das premissas do Iluminismo, já a religiosidade enfatizada é um aparente rompimento com as premissas liberais da ciência. Isso explica, de certa forma, a polarização irreconciliável da antinomia secular versus religioso. Daí o radicalismo com que se enxerga e se debate sobre aborto, eutanásia e outros desafios que ainda estão em aberto, à espera de um consenso inalcançável.

A edificação de um poder secular estruturado em Estado de direito, neutro do ponto de vista das imagens do mundo, é cada vez mais difícil. Com isso, em risco a garantia de convivência tolerante, e com igualdade de direitos, de comunidades de fé diferentes, que, na substância de suas doutrinas e visões de mundo, continuam insuscetíveis de convivência racional.

Como convencer a cidadania de que é imprescindível a necessidade de conviver em uma ordem democrática? Para Habermas, “o Estado democrático alimenta-se de uma solidariedade de cidadãos que se respeitam reciprocamente como membros livres e iguais de uma comunidade política. Ora, tal solidariedade não brota das fontes do direito”.

O direito, disseminado de maneira instrumental e ilusória na profusão de faculdades, fez proliferar as carreiras jurídicas estatais e, longe de formar o ambiente em que cidadãos seculares e religiosos estejam dispostos a se ouvirem mutuamente em debates públicos e a aprenderem uns com os outros, apenas multiplica as demandas, tornando o Brasil o campeão da beligerância judicial.

“Modos de pensar fundamentalistas não se conciliam com a mentalidade a ser compartilhada por um grande número de cidadãos, quando pretendem manter coesa a comunidade democrática”. Se no Ocidente cristão a teologia assumiu papel pioneiro no trabalho de autorreflexão hermenêutica sobre doutrinas oriundas da tradição, o diálogo difícil entre a ciência moderna e o pluralismo religioso propõe uma questão. “Será que a elaboração dogmática dos desafios cognitivos representados pela ciência moderna e pelo pluralismo religioso, pelo Estado constitucional e pela moral social secular, terá sido bem-sucedida? Será que ela veio acompanhada de ‘processos de aprendizagem’ em geral?”

Só se vive autêntica democracia, se a maioria dos cidadãos consegue satisfazer a determinadas expectativas vinculadas à civilidade de seu comportamento, a despeito de profundas diferenças da fé e das cosmovisões. Não é o que ocorre em nossos dias. Se o secularismo insiste na ideia de que as formas de pensamento arcaicas abrigadas nas doutrinas religiosas foram superadas e desvalorizadas pelo progresso do conhecimento e da pesquisa, o radicalismo religioso sequer admite um diálogo sereno a respeito. Habermas seguia a tese hegeliana, de acordo com a qual as grandes religiões constituem parte integrante da própria história da razão. O pensamento pós-metafísico não chegaria a uma compreensão adequada de si mesmo, caso não incluísse na própria genealogia as tradições metafísicas e religiosas.

Jürgen Habermas tentou aclarar o panorama da polarização, debateu com Joseph Ratzinger, seu conterrâneo, antes de se tornar Bento XVI e fará muita falta a um mundo ainda muito comprometido por ódios, ira, sementes de violência que fazem duvidar se o projeto humano é, realmente, um êxito de que se deva orgulhar.

 

 

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