O lugar de fala como atalho de poder
A eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher recolocou em cena uma contradição antiga da militância identitária. Não se trata de negar sua identidade, nem de relativizar ataques preconceituosos. A questão é mais simples: um campo político que passou anos ensinando que só quem vive determinada dor pode falar com legitimidade sobre ela aceita aplicar essa regra a si mesmo?
Em sua formulação mais elaborada, “lugar de fala” não significa proibir ninguém de falar, mas chamar atenção para o ponto de vista a partir do qual se fala. O problema está no modo como parte da militância passou a usar esse vocabulário para distribuir legitimidade. Na prática, o conceito deixou de ser apenas um convite à escuta e passou a funcionar como selo de autoridade. Não bastava defender uma causa; era preciso encarná-la. A experiência vivida virou credencial. E disso nasceram hierarquias internas de legitimidade, inclusive dentro da própria comunidade LGBT.
A polêmica atual expõe isso com clareza. Há mulheres que dizem não se sentir representadas por Erika Hilton. Isso não deveria ser tratado como escândalo moral. Convém separar duas coisas: o direito institucional de ocupar um cargo e a percepção subjetiva de representação política. Erika Hilton pode ter plena legitimidade formal para presidir a comissão e, ainda assim, não representar, aos olhos de muitas mulheres, suas prioridades, referências e posições políticas. Essa distância pode decorrer menos de sua identidade do que de divergências sobre partido, campo ideológico, linguagem pública e forma de atuação.
O mesmo vale para a linguagem. Há mulheres que rejeitam o rótulo “cis” não por hostilidade a pessoas trans, mas porque entendem que já se nomeiam simplesmente como mulheres e não aceitam que uma categoria surgida em debates militantes, acadêmicos ou institucionais se converta em forma obrigatória de autodesignação. Dizer isso não deveria bastar para transformar alguém em suspeito moral.
A contradição aparece quando o mesmo campo que exigiu deferência à autodefinição de alguns reage mal quando outras mulheres afirmam como querem ser chamadas — ou quando dizem que não se sentem representadas. A pergunta, então, é inevitável: autodefinição vale para todos ou só para alguns?
No caso de Erika Hilton, há também uma questão de estratégia. Sua eleição se deu em votação apertada, por 11 votos a 10 em branco. É verdade que a presidência de uma comissão não equivale a mandato exclusivo sobre toda a pauta que ela abriga. Mas também é verdade que o cargo tem peso simbólico, poder de agenda e centralidade política. Ao dizer que pretende representar “todas as mulheres”, Hilton assume mais que uma função procedimental. Assume um lugar de alto valor simbólico. É difícil acreditar que uma figura tão experiente no jogo midiático não tenha calculado o impacto dessa escolha.
A pergunta é outra: isso fortalece a pauta que diz defender ou apenas alimenta a polarização, num ambiente em que visibilidade passou a valer mais do que maioria?
Convém reconhecer os fatos. Não é verdade que Erika Hilton “não fez nada”. Mas também é verdade que a população LGBT segue dependendo do STF para proteção básica, diante da lentidão do Congresso em consolidar direitos por via legislativa.
É aí que está o ponto incômodo. Se a política identitária prometia transformar vivência em força institucional, por que segue produzindo tanto barulho simbólico e tão pouca consolidação legislativa? Se “lugar de fala” vale para limitar uns, deveria também limitar a pretensão dos seus. Quando um princípio serve para conter adversários, mas não para limitar aliados, ele deixa de ser princípio. Vira estratégia de poder.
