Flávio Bolsonaro e o PL ampliam a pressão sobre um Romeu Zema já cercado por todos os lados
O senador Flávio Bolsonaro e o comando do PL estão ampliando a pressão sobre Romeu Zema (Novo) com a disposição de tirá-lo da corrida presidencial. Os acenos inclusive à possibilidade de oferecer a vaga de vice na chapa do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro chegam no momento em que Zema, pelas pesquisas e circunstâncias nacionais e locais, parece cercado de todos os lados.
Os desafios vão além dos modestos 2% a 3% registrados, a depender do cenário, na última pesquisa Genial/Quaest. Zema acabou espremido entre candidatos que representam muito mais claramente o eleitorado que se preparou para conquistar. Hoje, sua resistência em deixar a corrida tem muito mais a ver com um compromisso com o crescimento do Partido Novo no Legislativo do que com uma esperança real de que possa vencer a corrida.
A essa altura da disputa, com as candidaturas trabalhando seus arranjos e estratégia, cabe a pergunta básica: quem seria o eleitor de Romeu Zema na próxima eleição?

Para vencer duas vezes nas disputas ao governo de Minas, o pré-candidato do Novo precisou bastante da vinculação ao bolsonarismo raiz. E Zema esforçou-se para manter essa vinculação sobretudo no segundo mandato, quando buscou posições ainda mais conservadoras e usou uma comunicação mais dura e, por vezes, inusual, no embate com Lula. Comer banana com casca, usar IA para mostrar o presidente como um bebê reborn ou coisas do tipo tinham dois objetivos: ganhar evidência e conquistar o eleitor mais fiel ao estilo bolsonarista.
Ocorre que, ao construir sua candidatura, Zema não imaginou que o nome oficial do PL seria exatamente o filho de Jair Bolsonaro. O governador de Minas imaginou que, em uma disputa sem alguém da família e com nomes que se expressam mais na centro-direita, como Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior, talvez pudesse conquistar o eleitor mais conservador e vinculado ao ex-presidente. Foi ideia semelhante da que teve Ronaldo Caiado, que igualmente foi pego no contrapé com a escolha de Flávio.
Sem o eleitor raiz do bolsonarismo, poderia sobrar a Zema justamente esses mais moderados, que admiram as gestões de centro-direita que se colocam, ao menos discretamente, como um contraponto à polarização. Mas ao juntar três dos cinco nomes mais cotados – um outro é Tarcísio que está com Flávio – a candidatura do PSD acabou ganhando musculatura junto a esse grupo. O peso dos votos trazidos por Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, em um partido bem maior e com bem mais interlocução com empresários e setores do agro e mais tradição de articulação política, foi o segundo balde de água fria no mineiro.
Restaria a Zema uma fatia de liberais ainda mais convictos, que hoje o governador de Minas teria que dividir com Renan Santos (Missão). Embora hoje apareça com apenas 1% das intenções de voto, Renan e o grupo que representa, o antigo MBL, mostraram capacidade de mobilização ao fundar um partido em tempo recorde, possuem militância articulada e toda uma atmosfera de suporte dos ideais que, em uma campanha, podem fazer diferença na disputa com Zema por um quinhão desse setor do eleitorado.
Sabedor do isolamento de Zema, cuja candidatura solitária do Novo não é levada a sério por boa parte da classe política, o grupo de Flávio Bolsonaro passou a agir mais diretamente. No início do mês, em entrevista ao Canal Livre, da Band, Valdemar Costa Neto incluiu um ingrediente local nessa pressão, ao dizer que, com Zema candidato a presidente, não seria possível ao PL apoiar a candidatura de Mateus Simões ao governo de Minas. A fala veio dias depois de um papel de posse de Flávio Bolsonaro revelar a visão de que Mateus puxaria o filho do ex-presidente para baixo. O recado do PL aí seria o de que, se Zema insistir em enfrentar Flávio nacionalmente, sua sucessão em Minas estaria em risco.
O problema para Flávio é que talvez o argumento não pese tanto para Zema. Afinal, o governador de Minas nunca demonstrou qualquer apreço pela articulação política. Ele não gosta do tema, o que ajuda inclusive a explicar a razão pela qual ele não é um bom transferidor de votos. Não elegeu muitos prefeitos, nem seu senador predileto, e seu partido continuou minúsculo mesmo governando o segundo maior colégio eleitoral do País. Ele também não tem aspirações no Legislativo e nem vive disso. Não seria problema para ele, pessoalmente, não eleger também seu sucessor em Minas.
Hoje, Zema parece firme no compromisso de ajudar o Novo, oferecendo uma candidatura presidencial que coloque o número da legenda em voga em uma momento crucial em que o Missão chega rapidamente disposto a tomar o que sobrou de seu eleitorado. Mas sem horário eleitoral na TV e espremido por tantos nomes mais competitivos, a vice de Flávio – um candidato ainda não favorito, mas hoje muito viável – talvez seja um bom prêmio de consolação.
