26 de março de 2026
Politica

Guerra no Irã escala de forma grave, com riscos elevados inclusive para o Brasil

Com um ataque de baixo custo, anunciado com horas de antecedência, o Irã elevou de forma dramática os custos da guerra no Oriente Médio. Entre quarta e quinta-feira, mísseis atingiram o complexo de Ras Laffan, maior produtor mundial de gás natural liquefeito (GNL), no Catar. Os danos ainda estão sendo calculados, mas a empresa responsável pelo projeto prevê uma queda severa na produção por anos, com sérias repercussões em todos os países do mundo, inclusive no Brasil.

Antes de discutir o estado atual do conflito com maior profundidade, vale dar um pouco mais de contexto sobre este ataque específico. Ras Laffan é enorme, com quase 300 quilômetros quadrados, e é responsável por um quinto do GNL consumido no mundo. A liquefação do gás exige equipamentos de alta tecnologia, de difícil construção e reparo.

O presidente Donald Trump ameaçou destruir o campo de gás South Pars, no Irã, caso sejam realizados novos ataques contra a principal instalação de gás do Catar
O presidente Donald Trump ameaçou destruir o campo de gás South Pars, no Irã, caso sejam realizados novos ataques contra a principal instalação de gás do Catar

Os disparos do Irã foram uma retaliação declarada a um ataque similar, feito por Israel com anuência dos Estados Unidos, contra a maior área de produção de gás natural do Irã: South Pars. Até aquele momento, o foco principal do Irã era manter o controle do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo, gás, e outros produtos essenciais consumidos pelo mundo. Com o ataque a Ras Laffan, o Irã mostrou que tem condições de sustentar essa posição e ainda causar danos permanentes à infraestrutura energética da região. O Irã está conseguindo compensar sua grande desvantagem militar com ações eficazes de guerra econômica, impondo custos muito altos aos seus adversários.

É possível que os Estados Unidos e Israel insistam na estratégia atual, tentando forçar a passagem pelo Estreito de Ormuz em uma guerra de atrito contra o Irã. Pode haver mais danos, portanto, à infraestrutura, com mais semanas de interrupção do tráfego até que a situação comece a arrefecer. Isso poderia elevar ainda mais as cotações do petróleo, do gás, dos fertilizantes e de outros insumos nos mercados internacionais. Não se pode descartar, porém, que a pressão econômica force algum recuo. O presidente Donald Trump dificilmente conseguirá sustentar por muitas semanas um cenário de forte alta da gasolina e de outros combustíveis, que reduzirá sua popularidade.

Mas, independentemente da próxima decisão de Estados Unidos e Israel, é importante registrar as consequências que já podem ser estimadas a partir do estado atual do conflito. Nos mercados de energia, o impacto já é comparável ao do início da Guerra da Ucrânia, em 2022, com duas diferenças principais.

A primeira é que, naquela ocasião, os preços subiram mais do que agora, mas voltaram ao normal mais rapidamente. Dessa vez, com os danos já registrados, a previsão é de um período mais longo de preços acima da média recente. Portanto, mais receitas para um país exportador como o Brasil, mas com pressão inflacionária mais prolongada.

A segunda diferença diz respeito ao impacto geográfico. Em 2022, a Europa foi a mais afetada pela interrupção do fornecimento de gás da Rússia. Agora, são os asiáticos que estão mais prejudicados, e que correm para o mercado internacional em busca de reposição. Há risco de escassez de alguns desses produtos, o que pode intensificar tensões geopolíticas e ter impacto econômico. No caso do Brasil, a grande preocupação é com o diesel, pois a competição de outros países pelas importações desse combustível pode não só aumentar os preços aqui, mas também levar a dificuldades de abastecimento.

Também podem ser traçados paralelos com 2022 no mercado de alimentos. O aumento de preços de fertilizantes por um período prolongado pode gerar custos mais elevados não apenas em 2026, mas também no ano seguinte.

O impacto de todos esses movimentos nas eleições no Brasil depende da gravidade do conflito nas próximas semanas e da resposta do governo. As primeiras medidas contra o aumento do diesel vieram rápido, o que ajuda a prevenir uma greve de caminhoneiros aos moldes de 2018. Mas esse risco precisará ser monitorado de perto, assim como o comportamento mais amplo da inflação e da atividade econômica. O Brasil pode estar mais protegido do que outros países por ser exportador de petróleo e produtor de alimentos, mas certamente não está imune a um conflito em larga escala.

 

 

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