26 de março de 2026
Politica

Como é ser a 1ª mulher general da história do Exército? “A ficha vai caindo aos poucos”, diz militar

A médica Cláudia Lima Gusmão Cacho passou a semana passada fazendo o último curso preparatório antes de ter a sua indicação para se tornar a primeira oficial general do Exército Brasileiro confirmada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Cláudia ocupará uma das quatro vagas de general de brigada do Serviço Médico do Exército e deve dirigir o Hospital da Força Terrestre de Brasília, do qual ela atualmente é a subdiretora.

A coronel Cláudia Lima Gusmão Cacho, que foi indicada para uma vaga de general do quadro de Saúde do Exército; ela será a primeira general da história da Força Terrestre
A coronel Cláudia Lima Gusmão Cacho, que foi indicada para uma vaga de general do quadro de Saúde do Exército; ela será a primeira general da história da Força Terrestre

A pediatra de 57 anos é casada com o general de divisão Jorge Augusto Ribeiro Cacho, um infante da turma de 1991 da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). O casal tem duas filhas, a mais velha é engenheira e a mais nova, que está cursando medicina, cogita seguir a carreira da mãe. Cláudia Cacho sabe que seu nome será lembrado por muito tempo: estará lá nos manuais e livros como a primeira general do Exército. Lei a seguir, a entrevista:

O que fez a senhora pensar em entrar no Serviço Médico do Exército quando estava na Faculdade de Medicina de Pernambuco?

Foi uma série de acontecimentos. Na faculdade eu conheci o meu esposo que é militar. Fiz a minha especialização no Recife. Logo em seguida nós casamos. Quando começamos, ele ainda era cadete da Aman. Ele é da turma de 1991 da academia. Eu entrei no Serviço de Saúde em 1996, como militar temporária. Eu não conhecia a Força, mas tinha uma certa proximidade. Apareceu essa oportunidade e eu quis entrar como militar temporária e conhecer um pouquinho mais. Eu iria atuar ali como médica, como pediatra, que era a minha especialização. Comecei a gostar de estar no Exército e me senti à vontade no ambiente. Foi quando surgiu a oportunidade de fazer o concurso e disse: ‘Eu vou’. Lógico que pesam outros fatores, a própria estabilidade, a possibilidade de acompanhar as movimentações (do marido).

E como foi conciliar isso? A senhora como oficial médica e ele como infante poderiam acabar em lugares distintos.

Geralmente, o Exército tenta conciliar. Hoje temos vários casais na Força. Quando o mais antigo é movimentado, a gente procura acompanhar. Temos mulheres, às vezes, em batalhões de selva. Isso aí foi acontecendo naturalmente com esse aumento do ingresso das mulheres na Força.

A senhora entrou num serviço no Exército que, historicamente, sempre teve presença feminina. A senhora acredita que isso tenha feito com que a presença de uma mulher fosse mais tranquila dentro da instituição em comparação com as mulheres que foram para a Aman, por exemplo, ou para a Intendência, o Material Bélico ou Comunicações?

O fato da gente vir da área de Saúde, que já é uma área mista há muito tempo, ainda majoritariamente masculina, facilita, sim. O pessoal de 1992, que foi a primeira turma do quadro complementar de oficiais, que tem pessoal de ensino, tem as enfermeiras, jornalismo e direito, entra nisso também. Com certeza facilita. As mulheres da Academia estão desbravando uma área que realmente era totalmente masculina e estão ali fazendo um excelente trabalho.

A promoção da senhora ou de uma colega era pedra cantada depois que o comandante do Exército, general Tomás Paiva, anunciou essa possibilidade há dois anos. Como foi receber a indicação?

O general Tomás falou sobre isso numa entrevista em 2024. Falou que as mulheres estavam chegando e concorrendo forte. E por que isso? Porque seria o tempo para as integrantes das primeiras turmas cumprirem aqueles estágios que todos temos que cumprir: todos os postos, as direções exercidas, o curso de Comando e Estado-Maior e o interstício, que é o tempo mínimo que a gente tem que ficar no posto. Por isso a projeção do nosso comandante foi que as mulheres, provavelmente, em 2026 estariam concorrendo, o que não queria dizer que seria escolhida uma mulher. Nós concorremos em igualdade com todos aqueles que entram naquela lista (de candidatos a general), que preencheu os requisitos e que é submetido à avaliação do Alto Comando. Eu recebi a ligação de um integrante do Alto Comando, que me comunicou. E foi uma honra receber essa notícia.

Nessa vida de militar, a senhora mudou quantas vezes de cidade?

Mudanças do tipo pega toda a nossa casa e coloca na caixa e vamos embora foram mais de 15. Teve cidades, por exemplo, o Rio de Janeiro, onde são a maioria dos nossos cursos, que nós moramos quatro ou cinco vezes. Ao todo, nós passamos por cerca de sete Estados.

Como sua promoção repercutiu entre suas colegas? Daqui 50 anos, todos vão lembrar quem foi a primeira mulher a chegar ao generalato. Essa ficha já caiu pra senhora, o significado disso para a história da instituição?

A ficha está caindo aos poucos. O integrante do Alto Comando, quando conversou comigo, disse: ‘Parabéns, você é a primeira mulher indicada a oficial general do Exército’. Primeiro a gente sente aquela alegria e, depois, entra nesse redemoinho de coisas que a gente precisa fazer e vai caindo aos poucos essa ficha. Às vezes as pessoas falam: ‘Coronel, a senhora entrou para a história’. Na hora, a gente fica assim: ‘Nossa, poxa’. E aí eu acho que aumenta até mais a responsabilidade. E ver nas colegas a alegria delas de eu ter conseguido é um incentivo e um estímulo também. Nós já temos tantas outras pioneiras: tenho uma colega de turma que foi a primeira mulher que foi para um um batalhão de Força de Paz, como médica. Temos a nossa primeira piloto de helicóptero. Temos várias pioneiras.

Quanto tempo ainda vai demorar para que o Brasil tenha uma general combatente, uma Laura Richardson, que chefiou o Comando Sul dos EUA?

As nossas mulheres combatentes são tenentes ainda. Então, elas vão cumprir todos os prazos para chegar lá. Mas nós já temos as engenheiras militares chegando com mais proximidade. Agora, todas as turmas que estão chegando, médicas e engenheiras, ejá têm mulheres concorrendo em pé de igualdade com mesmo comprometimento, profissionalismo e dedicação. Não deve demorar para sair uma outra mulher que chegue em condições de concorrer, pois competência, profissionalismo, lealdade e camaradagem não dependem de gênero.

 

 

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