Espetáculo ‘Eu, Zuzu Angel, agora milito’ estreia no Martim Gonçalves
Texto: Divulgação
Fotos: Ícaro Soares
Costureira, estilista, empresária, mãe e revolucionária. Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, fez da moda a sua voz, linguagem e protesto contra o regime militar nas décadas de 1960 e 1970. Ela é o foco do espetáculo “Eu, Zuzu Angel, agora milito”, que estreia no dia 15 de abril, no Teatro Martim Gonçalves (Canela).
A peça, que foi contemplada pelo Chamadão das Artes Cênicas, da Fundação Gregório de Mattos (FGM), fica em cartaz até o dia 26, com apresentações às quintas e sextas, às 19h; sábados, às 16h e às 19h; e aos domingos, às 16h. Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e estão à venda no Sympla e na bilheteria do teatro.
Com direção e dramaturgia de Sophia Colleti, a montagem tem como grande protagonista a atriz Vivianne Laert, no papel de Zuzu Angel, contracenando com Mano Leone, que interpreta Stuart e outros personagens masculinos, e Sophia Colleti, que vive a Filha e outros personagens femininos. O elenco recompõe as diversas fases e vertentes da vida familiar, artística e, principalmente, política de Zuzu Angel.
Entremeado de projeções de vídeo e potentes intervenções de luz e som, o espetáculo vai costurando – entre a poesia, a ficção e os fatos históricos – uma dramaturgia que pode ser percebida por meio de variadas atmosferas e planos narrativos; como o caráter biográfico e documental em que informações históricas vêm à tona, desvelando memórias e bastidores desse enredo, a exemplo do período em que Zuzu morou em Salvador e deu à luz ao seu primogênito: Stuart, nascido, assim, soteropolitano.
Uma das passagens emblemáticas da obra de Zuzu foi durante um desfile-protesto feito em Nova Iorque, no mesmo ano em que seu filho foi assassinado. Em alguns dos modelos desfilados, a artista trocou seus tradicionais motivos alegres por tecidos brancos bordados com desenhos coloridos, mas que evocavam cenários sombrios. Pássaros em gaiolas, quepes, aviões, tanques militares, soldados e canhões eram algumas das imagens nos vestidos que cruzaram a passarela. Entre eles, vestidos de linho branco com diferentes comprimentos de manga e um intenso longo com saia godê, em gorgorão de algodão vermelho-escuro, e a imagem de um anjo bordada na frente com canutilhos, miçangas e paetês.

Mediação Cultural e Acessibilidade
Durante a temporada do espetáculo, serão realizadas duas sessões mediadas, nas sextas-feiras, dias 17 e 24 de abril, às 14h30, com gratuidade para alunos, professores e funcionários da rede pública municipal de Salvador, bem como para pessoas com deficiência auditiva ou visual, públicos-alvo do projeto. As sessões contarão com audiodescrição e interpretação em Libras. Após essas apresentações, serão realizados bate-papos com o público, incentivando os estudantes presentes a tirarem dúvidas e refletirem sobre a democracia.
Processo de criação e encenação
O processo de criação e encenação de “Eu, Zuzu Angel, agora milito” começou na Universidade Federal da Bahia, em 2017, a partir de uma disciplina do curso de Direção Teatral, tendo sua dramaturgia testada em diferentes formatos ao longo dos anos e sempre bem recebida pelo público. Em 2021, durante a pandemia, e em celebração ao centenário de nascimento da estilista, foi realizada uma leitura on-line da peça, seguida de um bate-papo com a presença da jornalista Hildegard Angel, que conversou com o público e manifestou sua expectativa em ver a peça montada. Para a estreia em 2026, a dramaturgia foi reescrita, trazendo maior maturidade e informações atualizadas. O novo texto ganhará publicação em livro pela Alameda Editorial, editora paulista reconhecida por seu catálogo dedicado às ciências humanas e às artes, com lançamento previsto para abril.
O projeto “Eu, Zuzu Angel, Agora Milito” foi contemplado pelo edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador.

Zuzu Angel
Zuzu Angel (1921-1976) foi uma estilista brasileira. Mãe de Stuart Edgar Angel Jones, jovem desaparecido em 1971 durante o período da Ditadura Militar no país. Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, nasceu em Curvelo, em Minas Gerais, no dia 5 de junho de 1921. Ainda criança mudou-se com a família para Belo Horizonte. Morou em Salvador, na Bahia, época em que costurava para a família. Da cidade, recebeu grande influência em seu futuro trabalho.
Em 1940, Zuzu conheceu o americano Norman Angel Jones, com quem se casou em 1943. No dia 11 de janeiro de 1946 nasceu o primeiro filho, Stuart Edgar Angel Jones. O casal teve mais dois filhos, Ana Cristina e Hildegard Angel e, em 1947, se mudaram para o Rio de Janeiro. No final dos anos 50, Zuzu começou a trabalhar como profissional da costura. Nos anos 60, separou-se do marido. Em 1970, Zuzu abriu uma loja de roupas em Ipanema. Com o tempo, a estilista expandiu seu trabalho e chegou ao mercado norte-americano. Foi vitrine de grandes lojas de departamento e ganhou editoriais importantes. Chegou a ter clientes famosas, como as atrizes Kim Novak e Joan Crawford.
Na manhã de 14 de maio de 1971, seu filho Stuart, então estudante de economia e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que combatia o regime militar que foi instalado no país em 1964, foi preso no Rio de Janeiro e levado para a Base Aérea do Galeão. A partir do desaparecimento do filho, Zuzu transformou sua vida em uma batalha incansável em busca de informações sobre o paradeiro do filho.
Ainda em 1971, Zuzu realizou um desfile-protesto em Nova Iorque. Suas roupas incorporaram elementos que denunciavam a situação política brasileira, como tanques de guerra, canhões, pássaros engaiolados, meninos aprisionados e anjos amordaçados.
