4 de agosto de 2026
Famosos

Mostra Pitanga, que retrata trajetória de Antônio Pitanga, chega a Salvador com programação extensa, indo até 9 de agosto

 

Aconteceu na noite desta sexta-feira (31) a abertura da Mostra Pitanga, a maior retrospectiva dedicada à trajetória de Antônio Pitanga, em Salvador. O projeto passou pelo Rio de Janeiro e segue para São Paulo e Brasília depois da temporada na capital baiana. Com idealização de Thiago Ortman, a mostra conta com a curadoria do próprio, além da colaboração da filha do artista, Camila Pitanga. A mostra reúne 29 obras que foram feitas durante diferentes momentos da extensa carreira do ator, percorrendo cerca de 70 anos de história. A programação, que é gratuita, acontece entre os dias 31 de julho e 9 de agosto, ocupando salas do Cine Glauber Rocha, localizado no centro da capital baiana, e do Cine Lankiana, na Fazenda Grande. 

 

A abertura da mostra foi realizada no Cine Glauber Rocha, lugar de grande simbolismo para o próprio Pitanga, que descreve o local como um espaço onde “passava o cinema do mundo inteiro”, além de ser o lugar onde o movimento cultural baiano se consolidou. Pitanga, que se prepara para atuar na adaptação para as telonas do livro “A Cabeça do Santo”, da autora Socorro Acioli, vê o evento como uma oportunidade de revisitar obras das décadas de 50, 60 e 70 sob a ótica moderna do século XXI. 

 

Fotos: Matheus Santana / Bahia Notícias

 

O apanhado vai desde o ano de 1960 com “A Bahia de Todos os Santos”, do diretor José Trigueirinho Neto, que retrata a história de Tonho, um jovem rejeitado pela família, integrante de um grupo de amigos inconformados com o cenário político, que sobrevive de pequenos furtos pela cidade. Ele se vê em um turbilhão de conflitos que colocam sua liberdade e lealdade à prova; até 2025, com “Fernando Coni Campos: Cada um vive como sonha”, documentário dos diretores Luis Abramo e Pedro Rossi, que fala sobre a trajetória do diretor Fernando Coni Campos, um grande amigo e parceiro de Antônio Pitanga. A relação dos dois artistas foi marcada por colaborações em filmes como “Ladrões de Cinema” de 1977, em que Pitanga interpretou o protagonista, o cineasta Fuleiro. 

 

Para o artista, o Cinema Novo, é a matriz do cinema nacional atual. Ele afirma que filmes contemporâneos são “filhos e filhas” desse movimento do cinema brasileiro que foi idealizado justamente por Glauber Rocha, sendo marcado por uma forte crítica social, baixo orçamento e o lema “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. O ator destaca que o Cinema Novo surgiu em um momento na história em que a cultura brasileira era marginalizada em detrimento do que vinha da Europa. 

 

Questionado sobre a evolução do cinema no Brasil, principalmente no que diz respeito à presença dos profissionais negros e negras, tanto na frente quanto por trás das telas, Pitanga acredita que houve uma evolução. “A gente chegou num patamar que me orgulha muito. Enche os olhos de alegria e o coração acelera. Hoje os jovens estão fazendo grandes filmes, tudo isso a gente plantou lá atrás, o resultado está acontecendo agora”, celebrou o artista, que é considerado uma referência por ter sido um dos primeiros atores negros a conseguir atuar no cinema nacional. Uma vitória da cena cinematográfica brasileira, comemorada pelo ator, é a descentralização do cinema, saindo do eixo Rio-São Paulo e hoje passando por estados do Norte e do Nordeste.

 

Fotos: Matheus Santana / Bahia Notícias

 

Pitanga, no entanto, também critica a falta de políticas públicas contínuas para a cultura no Brasil, afirmando que ela nunca foi tratada como um “projeto de nação”. O artista relata a imensa dificuldade de financiar histórias sobre o povo negro e levantes históricos. A exemplo, o filme dirigido pelo próprio, “Malês” de 2025, que está concorrendo em quatro categorias do Prêmio Grande Otelo deste ano. O longa levou cerca de 30 anos para ser realizado, desde a primeira conversa com João José Reis, historiador que atuou como consultor do filme, em 1986. O ator reforça a importância de contar histórias que o Brasil não conhece e de ocupar postos estratégicos, ainda majoritariamente brancos. 

 

Aos 87 anos, Pitanga recusa o rótulo de “velho”. Ele busca trabalhar com jovens cineastas para “armazenar juventude” e trocar experiências. Além disso, ele encara com naturalidade a transição da película para o digital e o streaming, afirmando que seu corpo carrega passado, presente e futuro simultaneamente. Sua principal recomendação é “não perder a referência”, mantendo a conexão com a própria história e com aqueles que vieram antes.