11 de maio de 2026
Politica

Como o crime digital fez a máfia trocar o porto de Santos como o maior fornecedor de coca à Europa

Nicola Gratteri é o atual chefe da Procuradoria Antimáfia de Nápoles, na Itália. Há muito conhece a realidade da criminalidade organizada na América do Sul, desde 1989, quando começou a viajar para a Venezuela, a Colômbia e o porto de Santos. Era um tempo em que ‘Ndrangheta, a máfia da Calábria, mandava ao continente brokers, como Rocco Morabito, para tratar da compra de 2 mil quilos de cocaína. Morabito foi preso no Brasil e extraditado para a Itália.

O chefão italiano Rocco Morabito, conhecido como U Tamunga, em sua ficha na polícia brasileira
O chefão italiano Rocco Morabito, conhecido como U Tamunga, em sua ficha na polícia brasileira

“Portanto, eles tinham uma estrutura. Era preciso estar aqui (o procurador falava durante um evento da Fondazione Magna Grecia, realizado no Rio, e acompanhado pela coluna) ao menos um mês, arrumar um carregamento que servisse de cobertura para a droga, a transportadora, a embarcação e a passagem pela alfândega em Roterdã (Holanda)”, contou o procurador.

Ele prosseguiu seu relato, afirmando: “Hoje as coisas são mais simples. As coisas mudaram e muito. Por exemplo: Santos, o maior porto da América do Sul, era o preferido da ‘Ndrangheta. Hoje o Equador se tornou uma plataforma de onde parte grande parte da cocaína que inunda a Europa.”

Gratteri foi durante um tempo procurador em Reggio Calabria, onde se ocupava dos casos da ‘Ndrangheta, de quem se tornou o homem mais odiado pela máfia calabresa, protegido por escolta policial em um país onde o crime organizado matou juízes como Giovanni Falcone. O procurador italiano conhece a Polícia Federal (PF), pois várias de suas investigações tinham conexões com o Brasil.

Os mafiosos Nicola Assisi e seu filho Patrick Assisi, presos pela PF em São Paulo, eles cumprem pena no sistema de presídios federal do Brasil: ligação da 'Ndrangheta com o PCC
Os mafiosos Nicola Assisi e seu filho Patrick Assisi, presos pela PF em São Paulo, eles cumprem pena no sistema de presídios federal do Brasil: ligação da ‘Ndrangheta com o PCC

“A Polícia Federal brasileira tem um bom nível e, considerando a vastidão do território e as organizações criminosas brasileiras e a ferocidade da criminalidade organizada do Brasil, o número de policiais (13,8 mil) são verdadeiramente poucos”, afirmou. O procurador não tem dúvida que, por tudo isso, seria uma utopia pensar que o Brasil conseguirá controlar sua fronteira norte. “Portanto, não estamos preparados para enfrentar, em nível internacional, o narcotráfico”.

Gratteri não critica apenas a insuficiência da PF para deter os narcos na vastidão amazônica, mas também o trabalho dos políticos italianos, em especial, o ministro da Justiça de seu país, Carlos Nordio, um ex-magistrado que, no passado, entrou em atrito com o pool de Milão, responsável pela operação Mãos Limpas. Após se aposentar, filiou-se ao Fratelli d’Itália (FdI), o partido da primeira-ministra Giorgia Meloni.

“As máfias sempre se atualizam e penso, por exemplo ao nosso ministro Nordio, quando ainda antes de ser nomeado ministro tentava nos convencer sobre a inutilidade das interceptações telefônicas; ele dizia que custavam muito, que fazíamos interceptações aos borbotões, disse um monte de coisas que eu poderia ficar uma semana aqui desmentindo essas bobagens”, afirmou o procurador.

Durante as investigações, os policiais franceses encontraram mensagens que mostravam que os mafiosos capturaram um homem acusado de ser um informante da polícia: vítima teria sido torturada pelo tribunal da máfia
Durante as investigações, os policiais franceses encontraram mensagens que mostravam que os mafiosos capturaram um homem acusado de ser um informante da polícia: vítima teria sido torturada pelo tribunal da máfia

Foi então que Gratteri se concentrou em um ponto do que dizia o ministro que deixou pasmado os procuradores. “Entre as tantas bobagens que disse para justificar a reforma do Judiciário, disse que era preciso voltar a seguir a pé os suspeitos.” E, então, o procurador teve de dar razão ao ministro. É que ele teve em suas mãos as informações fornecidas pelo supertraficante Raffaele Imperiale.

Imperiale ficou conhecido por seu envolvimento no roubo de dois quadros de Van Gogh do Museu Van Goh, em Amsterdã, em 2002 e que foram recuperados em Castellammare di Stabia, cidade litorânea na província de Nápoles. Era ligado ao clã dos Scissionisti di Secondigliano, da Camorra, a máfia napolitana. Em 2021, acabou preso em Dubai.

Gratteri traça o perfil do criminoso, pouco conhecido no Brasil. “Interceptando, investigando e trocando dados sobre o que disse Imperiale, um narcotraficante que, para se ter uma ideia de sua importância, podemos dizer que comprava 40 quilos de ouro por mês, comprou uma ilha em Dubai, com grandes propriedades imobiliárias e mantinha conexões com a máfia albanesa em países do norte da Europa, na Holanda e na Bélgica”.

Preso na  Praia dos Carneiros, em Pernambuco,  Odair Lopes Mazzi Junior, o Dezinho, líder do PCC, responsável pela lavagem de dinheiro da facção, ostentava nas redes sociais viagens a Dubai, onde atuava Raffaele Imperiale
Preso na Praia dos Carneiros, em Pernambuco, Odair Lopes Mazzi Junior, o Dezinho, líder do PCC, responsável pela lavagem de dinheiro da facção, ostentava nas redes sociais viagens a Dubai, onde atuava Raffaele Imperiale

Foi Imperiale quem abriu os olhos do procurador para a mudança ocorrida no crime organizado em razão da digitalização das organizações criminosas. “Então, ele (Imperiale) disse ‘nós para comprar toneladas de cocaína’ — ou seja, para comprar as toneladas de cocaína que produzem só para ele, que ele é um dos sócios desse joint venture da droga, ele disse — ‘é com esse celular que tenho nas mãos e que é mais potente do que o software usado para se ir à Lua, eu coloco esse software nesse telefone e, sentando em uma poltrona, encomendo 2 mil quilos de coca navegando na dark web‘.”

Diante do relato de Imperiale, Gratteri se questionou. “Caro ministro Nordio, quem eu devo vigiar se Imperiale não se move de sua cadeira?” Para fazer compreender o que é a dark web a quem não trabalha com o combate ao crime organizado, Gratteri disse que a internet é um lago, enquanto a dark web é um oceano, a internet é a Terra e a Dark Web é o universo. “Ela é um supermercado onde se encontra tudo o que é ilegal. Os dados de uma clínica VIP são roubados e vendidos, 2 toneladas de cocaína, armas de guerra, mísseis anticarros por € 30 mil que desintegram blindados na Ucrânia.”

O procurador chegou ao ponto. As máfias adquiriram um nível tecnológico maior do que os investigadores que as combatem. “E, por isso, eu não entendo quem eu devo seguir a pé. ”Se quem faz leis faz esse tipo de análise, eu fico preocupado.” A fragilidade do Estado diante do crime digitalizado é tamanha que até mesmo as ações da Justiça foram vítimas de um hacker em 2024 na Itália.

Mafiosos trocavam pelos sistema de mensagens Sky ECC fotos modificadas para poder fazer documentos falsos, como os usados por Rocco Morabito
Mafiosos trocavam pelos sistema de mensagens Sky ECC fotos modificadas para poder fazer documentos falsos, como os usados por Rocco Morabito

“O ministro Norcio propôs o teste psiquiátrico para os magistrados. Sim, vamos fazer, mas se deve dizer também, façamos também o bafômetro e o teste de drogas nos políticos”, desabafou. E concluiu que a administração pública na Itália não está à altura para combater as máfias. E deu como exemplo o caso do hacker.

“Fiz uma investigação como procurador de Nápoles, onde um hacker de 24 anos tinha o domínio do Ministério da Justiça nas mãos. Isso quer dizer, ele podia entrar no registro geral da Procuradoria de Nápoles e inscrever o nome de quem quisesse no rol de acusados por associação mafiosa. Ele tinha o acesso.”

A investigação durou 8 meses. O hacker tinha as senhas de centenas de magistrados e assim lia a correspondência de todos, mas quando chegou na caixa de correio de Gratteri, se irritou porque não encontrou nada. “E por que não encontrou? porque eu não uso o sistema do ministério da Justiça. A rede da administração pública é como os aquedutos italianos onde 47% da água se perde.”

Trecho da investigação italiana com a Foto enviada pelos traficantes de armas para os mafiosos da 'Ndrangheta: fuzis AK-47 teriam como destino o PCC
Trecho da investigação italiana com a Foto enviada pelos traficantes de armas para os mafiosos da ‘Ndrangheta: fuzis AK-47 teriam como destino o PCC

Ou seja, em vez de interceptar as comunicações da máfia, agora era o crime que interceptava as comunicações dos magistrados. E assim, com a chegada do mundo digital, as máfias matam cada vez menos, pois não têm mais necessidade de matar. Elas têm o dinheiro para corromper. “É preciso se tornar competitivo”, concluiu Gratteri.

É um mundo onde as organizações criminosas, entre as quais sul-americanas, têm capacidade de construir plataformas e aplicativos para conversar livremente entre elas com telefones criptografados. Em 2021, policiais franceses conseguiram entrar no sistema Sky ECC, usado pela ‘Ndrangheta e pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). “Os policiais franceses, alemães e holandeses tem essa capacidade. O procurador de Roterdã nos procurou dizendo que tinha 20 mil áudios apreendidos de criminosos italianos que podiam nos interessar.”

Para o procurador, além da incapacidade dos políticos de antever as ações da criminalidade organizada, o sistema processual italiano seria “hipócrita”. “Por que hipócrita? Dou um exemplo do proprietário do Telegram. Telegram não permitia acesso às chaves criptográficas. Ninguém no mundo conseguia interceptar o Telegram. Até que em um momento, os franceses fazem uma armadilha e fazem aterrissar em Paris o dono do Telegram com seu avião privado. Por 5 dias ele desaparece. No sexto, a memória dele volta e ele se recorda de todas as chaves criptográficas e os dá à polícia francesa.”

Trechos das mensagens entre Morabito e Gligora sobre a benda de armas para o Brasil e o interesse dos brasileiros:
Trechos das mensagens entre Morabito e Gligora sobre a benda de armas para o Brasil e o interesse dos brasileiros: “Interessam a eles aquilo que você sabe’

Na Itália, disse Gratteri, esse procedimento não seria possível. “Haveria procuradores que teriam aberto processos por sequestro e cárcere privado, 50 comissões parlamentares de inquérito seriam abertas e, talvez, cairia o governo. No mínimo, o ministro da Justiça seria demitido. Na França não. É coisa normalíssima. A segurança do Estado é prioritária e preeminente em relação aos interesses econômicos ou a qualquer norma. Por quê? Porque os sistemas francês, alemão e holandês conseguem interceptar? Porque usam tecnologias militares.”

Segundo Gratteri, os procuradores italianos não podem fazer o mesmo pois devem explicar nas audiências como chegaram a tal informação, como apreenderam mercadorias e como interceptaram telefonemas, revelando segredos às defesas dos mafiosos, que, assim, conseguem se prevenir em casos futuros. “Somos obrigados a recomeçar da estaca zero, daí a hipocrisia do sistema, pois queremos um país seguro, mas queremos a transparência absoluta, porque somos garantistas.”

“Estamos fazendo reformas normativas que não servem absolutamente para nada. A única reforma legal útil feita por este governo (Meloni) foi a que consentiu a fazer investigações sobre a cibersegurança, que permitiu prender preventivamente os hackers e fazer acordos de delação premiada como se fossem mafiosos, inclusive, colocando-os no programa de proteção a testemunha.”

Mensagens interceptados pela polícia dos mafiosos sobre a chegada do navio com a droga no porto de Gioia Tauro, na Calábria
Mensagens interceptados pela polícia dos mafiosos sobre a chegada do navio com a droga no porto de Gioia Tauro, na Calábria

Segundo ele, foi essa reforma que permitiu aos procuradores prender o hacker que tinha nas mãos o Ministério da Justiça. “Até agora, recuperamos 42 milhões de bitcoins que serão transformados em euros e depositados no fundo único da Justiça. Por isso, quando o ministro Nordio me diz que as interceptações custam muito, 170 milhões ao ano, eu não posso ficar calado, pois o silêncio para mim é cumplicidade”.

 

 

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