6 de maio de 2026
Politica

‘Adote um míssil’ e mineração com computador: como o terror usa criptomoedas para se financiar

Ao pesquisar a palavra Hezbollah nos sites da Meta, um aviso surge na tela do computador: “O termo que você procurou às vezes é associado a atividades de pessoas e organizações perigosas, o que não é permitido no Facebook”. Logo em seguida, outra advertência é exibida a quem insiste em ver o resultado da busca: “Se você vir atividades violentas, criminosas ou discurso de ódio por parte de qualquer indivíduo ou organização, denuncie”.

O professor Jorge Lasmar mostra a campanha do Hamas: 'Adote um Míssil'; grupos terroristas usam as redes sociais e a internet em busca de doações.
O professor Jorge Lasmar mostra a campanha do Hamas: ‘Adote um Míssil’; grupos terroristas usam as redes sociais e a internet em busca de doações.

As mensagens parecem mostrar ao usuário das plataformas e da internet em geral que o ambiente digital está se tornando um meio seguro, onde o crime organizado e o terrorismo encontrariam cada vez mais dificuldade para se mover. Não é o que se assistiu nas últimas semanas.

Primeiro, com a segunda fase da Operação Nix, deflagrada pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad). Ela cumpriu 22 mandados de prisão e nove de internação de adolescentes em seis Estados. A turma era acusada de usar a internet para chantagear, torturar e estuprar adolescentes.

Depois, surgiu o caso de João Nazareno Roque, o funcionário terceirizado da empresa de tecnologia C&M Software, que está no centro do maior furto bancário da história do País. Por meio da invasão do sistema da empresa, bandidos que aliciaram Roque desviaram uma quantia que pode chegar a R$ 1 bilhão de seis instituições financeiras por meio do Pix.

Funcionário de TI diz à Polícia que recebeu R$ 15 mil para entregar login e senha a hackers
Funcionário de TI diz à Polícia que recebeu R$ 15 mil para entregar login e senha a hackers

O primeiro caso revela que apesar dos filtros e advertências, a internet ainda abriga meios para a prática de crimes. O segundo mostra como a digitalização bancária e financeira e a desbancarização não levaram em conta as oportunidades que se criariam para o crime organizado, e não só por meio da lavagem de somas astronômicas de dinheiro sujo em fintechs e fundos de participação, uma atividade quase sem fiscalização.

Quem criou o Pix pensou nos escritórios da Faria Lima e esqueceu das calçadas de São Paulo. De repente, uma epidemia de sequestros se formou quando os bandidos descobriram que podiam manter em cativeiro suas vítimas para rapinar suas contas bancárias. Em pouco tempo, as pessoas mais cuidadosas passaram a deixar em casa o celular com o aplicativo do banco e a manter em outro celular uma conta bancária secundária, com poucos recursos.

Demorou para que os bancos estabelecessem mecanismos de proteção para os correntistas. Foi preciso muita gente passar pelos cativeiros da Baixada Santista, da Vila Brasilândia ou do Lajeado. Os gênios da digitalização, da eficiência e redução de custos não entenderam o recado: o que se fazia com correntista também seria possível se fazer com os bancos.

'Novo cangaço':Amarrados em carros, reféns foram feitos de 'escudo humano' para impedir ataques da polícia durante mega-assalto em Araçatuba, em setembro do ano passado
‘Novo cangaço’:Amarrados em carros, reféns foram feitos de ‘escudo humano’ para impedir ataques da polícia durante mega-assalto em Araçatuba, em setembro do ano passado

Será que ninguém imaginou que deixar nas mãos de um funcionário terceirizado instrumentos que permitiriam a uma quadrilha ter acesso a bilhão não ia dar certo? Ou que, um dia, os bandidos não iam pensar: para que gastar quase um milhão em armas e carros para dominar uma cidade, enfrentar a PM e roubar uma transportadora de valores se a cooptação de um técnico de informática pode lhe valer R$ 1 bilhão sem dar um tiro? Se antes o alvo do aliciamento era o vigilante bancário, agora as quadrilhas procuram o especialista em TI.

Ao contrário das advertências do Facebook, o mundo digital se mostra cada vez mais aberto ao tráfico de drogas e de armas e ao recrutamento pelo crime de novos integrantes, ameaçando a estabilidade de países e, principalmente, das democracias. É o que disseram de forma uníssona, recentemente, à coluna o general Michele Carbone, chefe da Direção Investigativa Antimáfia (DIA) da Itália, bem como o procurador nacional antimáfia e antiterrorismo daquele país, Giovanni Melillo.

Mas o que ligaria o terrorismo à criminalidade organizada? “A característica comum mais importante entre eles é que, tanto o terrorismo quanto o crime organizado, têm uma capacidade de desestabilização que é social, institucional e política. Essa dimensão de periculosidade, ligada ao caráter organizado das atividades criminosas e à capacidade de impactar a sociedade, dão-lhes uma dimensão comum que requer o uso das mesmas técnicas investigativas para combatê-los”, afirmou Melillo.

O procurador nacional antimáfia e antiterror da Itália, Giovanni Melillo, durante entrevista no seminário na USP: 'sem colaboração entre os Estados não há como combater o crime organizado'.
O procurador nacional antimáfia e antiterror da Itália, Giovanni Melillo, durante entrevista no seminário na USP: ‘sem colaboração entre os Estados não há como combater o crime organizado’.

Os criadores de uma nova tecnologia quase nunca pensam em como ela poderá ser desvirtuada ou usada por bandido. Assim foi com o Pix, a internet, a inteligência artificial e as moedas virtuais. A americana Gretchen Peters, da Alliance Against Crime Online, citou dois exemplos de uso de redes sociais pelos bandidos no mundo digital durante seminário promovido pela cátedra Oswaldo Aranha, da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM), da Universidade de São Paulo (USP).

O primeiro envolvia o grupo xiita libanês Hezbollah. Para ela, o Facebook “se tornou tão importante para as atividades globais de mensagens e de arrecadação de fundos do Hezbollah que a ala de mídia social do grupo, que se autodenomina Jihad Digital, incorporou o logotipo do Facebook ao icônico logotipo do Hezbollah”.

O segundo caso, envolve narcotraficantes mexicanos. Peters, que pesquisou o vínculo entre a milícia afegã Taleban e o tráfico de heroína, afirmou que os grupos extremistas, “especialmente as gangues e cartéis do crime organizado, também usam as mídias sociais para anunciar pessoas que mataram ou para ameaçar e até mesmo publicar mensagens de assassinato de rivais, funcionários do governo e, às vezes, membros da mídia e blogueiros da comunidade”.

Gretchens Peters, da Alliance Against Crime Online, mostrou na USP como o Hezbollah usou redes sociais para se financiar.
Gretchens Peters, da Alliance Against Crime Online, mostrou na USP como o Hezbollah usou redes sociais para se financiar.

Isso ocorre há mais de uma década. Foi em 2014, por exemplo, que uma “blogueira mexicana que usava o Twitter para alertar sobre crimes em sua cidade natal, Reynosa, na fronteira com o Texas, foi morta, com seus assassinos usando seu próprio feed do Twitter para anunciar que ela havia sido morta, publicando fotos de seu cadáver”. Os bandidos deixaram ainda uma ameaça: “que ninguém seguisse seus passos”.

A professora de relações internacionais Rashmi Singh tratou da relação desses grupos criminosos com o terrorismo e citou o exemplo da Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e o Paraguai, onde o Hezbollah está presente. “Muitas vezes, são membros da diáspora (libanesa), são membros de clãs ou famílias, então já estão de alguma forma vinculados ao Hezbollah. Você tem então relações de conveniência. Isso acontece com indivíduos, grupos criminosos, que são motivados financeiramente. Eles não são motivados ideologicamente de forma alguma”, afirmou a pesquisadora.

Haveria ainda pessoas que seriam coagidas a cooperar com as atividades do Hezbollah. “Você tem ideologia, tem cooperação, tem conveniência, e tem coerção. Há negócios lícitos sendo extorquidos, alvos da diáspora, participação financeira forçada”, afirmou. Singh lembrou o caso da rede comandada por Assad Ahmad Barakat, que trabalhava na região para enviar milhões ao Hezbollah. Barakat acabou preso.

Ela ressaltou ainda as relações de conveniência entre “traficantes de drogas, distribuidores de cigarros, traficantes de armas e as empresas de fachada ideológicas, empresas familiares, e as empresas operadas pela diáspora e outros parceiros” no esquema de financiamento do Hezbollah.

A professora Rashmi Singh trata do caso Barakat e sua rede de financiamento do Hezbollah na Tríplice Fronteira.
A professora Rashmi Singh trata do caso Barakat e sua rede de financiamento do Hezbollah na Tríplice Fronteira.

Além dos negócios da Tríplice Fronteira, o Hezbollah teria começado a recrutar integrantes no Brasil, inclusive para ataques a alvos israelenses no País. Mas não só. A organização está se financiando por meio de criptomoedas, assim como o crime organizado, para movimentar grandes somas de recursos.

É sobre essa questão que se debruçou o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC-MG), Jorge Lasmar. “A grande maioria dos criptoativos é perfeitamente lícita. Mas há uma pequena exceção: uma pequena parte do ecossistema de criptoativos que está ligada ao financiamento do terrorismo.“

De acordo com ele, quando se trata do terrorismo, a atenção de todos é quase sempre capturada pelo momento do atentado, mas é mais importante entender que antes do ataque existe “uma série de atividades que vão permitir que esse ataque aconteça: o recrutamento, a construção das capacidades, o treinamento e o financiamento”.

Ele conclui: “E, mesmo após o ataque terrorista, a atividade terrorista continua. Vai ter fuga, evasão, exploração dos fatos nas redes sociais. Isso acaba retroalimentando o ciclo e trazendo novos recrutas e mais dinheiro”. Para ele, a questão do financiamento é o oxigênio das organizações, assim como do crime organizado.

“A diferença é que o terrorismo move poucos recursos; é muito barato fazer um atentado”. Pode-se fabricar um artefato com produtos facilmente comprados em farmácias e supermercados. “Mas, quando nós pensamos nas grandes organizações terroristas – Hezbollah, Hamas, Al-Qaeda, Lashkar-e-Taiba, Boko Haram –, elas movimentam uma quantidade muito grande de recursos, inclusive no Brasil“.

Como muitos países ainda não têm uma regulamentação eficaz para criptomoedas, os grupos radicais têm aproveitado as brechas. “A gente tem visto aqui no Brasil, é o surgimento do e-dólar-cabo. Doleiros tradicionais fazendo o chamado dólar-cabo. Cada vez mais temos visto os grupos estrangeiros entrando no Brasil e fazendo essa atividade de transferência de recursos para fora do Brasil, usando criptoativos bastante atrativos.”

De acordo com ele, apesar de a grande maioria do financiamento do terrorismo ainda acontecer por vias tradicionais e as doações terem um alcance muito limitado, as transações para as necessidades organizacionais e para fugir das sanções aos grupos costumam ter somas mais significativas.

“Havia uma preferência inicial pelo Bitcoin, mas como o Bitcoin permite o seu rastreio e várias pessoas têm sido presas por doar dinheiro para esses grupos utilizando bitcoin, então, eles têm migrado para outros criptoativos. Além disso, a variação do bitcoin é enorme. Em maio, passou de US$ 52,4 mil para U$ 104 mil”, afirmou Lasmar.

Apoiador do Hezbollah canta slogans de apoio ao líder supremo do irã, aiatolá Ali Khamenei, em manifestação em frente à embaixada da República Islâmica do Irã, em Beirute.
Apoiador do Hezbollah canta slogans de apoio ao líder supremo do irã, aiatolá Ali Khamenei, em manifestação em frente à embaixada da República Islâmica do Irã, em Beirute.

Como querem segurança financeira, os grupos preferem outras moedas, como o tether. Ele cita campanhas de doação de recursos para refugiados do campo de Al-Hol, na Síria, onde estão abrigados familiares de integrantes do Estado Islâmico. “Há inclusive brasileiros ali.”

Outro grupo terrorista que fez campanha recente de doação foi o Hamas. A primeira de suas campanhas foi em 2019, na qual o grupo explicava as vantagens do bitcoins, afirmando que ele era anonimizado. “Inclusive, fizeram a campanha, né, do Adote um Míssil. E eles colocavam os vídeos com as características, de cada um, o alcance, a potência, etc. E um QR code do bitcoin. Vocês podiam fazer a doação. Tinha o valor de cada míssil, que você poderia adotar para ser utilizado.”

Para Lasmar, o ponto mais interessante do caso do Hamas foi como o grupo se adaptou às respostas das agências de combate ao terrorismo. Ele identificou três fases distintas. Na primeira, o pedido de doações em bitcoins tinha um endereço específico com QR code. “Como esses endereços começaram a ser rastreados, eles passaram então a entregar endereços de carteiras privadas, que cada um pode fazer sem precisar de um banco. Isso dificulta, mas continua sendo rastreado.”

Assim, o Hamas e o Hezbollah passaram a ensinar como fazer doações de uma maneira anônima. “Por exemplo, como esconder o seu IP, como acessar a internet por meio de redes públicas para eu não conseguir monitorar”. Também passaram a aconselhar o uso dos doleiros, que enviavam o dinheiro sem que o doador fosse identificado.

A apresentação na USP de Jorge Lasmar sobre o uso de criptomoedas pelas organizações terroristas: grupos aderiram ao monero e à mineração de moedas.
A apresentação na USP de Jorge Lasmar sobre o uso de criptomoedas pelas organizações terroristas: grupos aderiram ao monero e à mineração de moedas.

Na terceira fase, há sites que geram um endereço diferente para cada doador, além do uso de NFTs, como no caso do Estado Islâmico. “Houve uma tentativa por parte de um dos seus simpatizantes de tentar criar NFT’s no Estado Islâmico e vender.” Além disso, os grupos estariam usando a criptomoeda monero. “No mês de junho iniciaram uma campanha baseada em monero.”

O monero é uma criptomoeda que se apresenta como “irrastreável e focada na privacidade do usuário”. Além da possibilidade de doação em monero, os terroristas adicionaram uma nova modalidade de ajuda: “empreste o seu computador para fazer mineração de monero”. O recurso que o doador receberia pela mineração irá direto para financiar o Estado Islâmico.

É por essas razões que os estados devem se empenhar por criar redes internacionais de combate ao crime organizado e ao terrorismo. Devem começar pela criação de agências centralizadas nacionais de combate a essas ameaças. “A cooperação regional também é a espinha dorsal, porque sabemos, empiricamente falando, o que já foi comprovado inúmeras vezes: as melhores respostas são sempre regionais, o que é difícil, especialmente, quando nem todos os países da América Latina designam o Hezbollah como uma organização terrorista”, afirmou Rashmi Singh.

 

 

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