Lei Brasileira de Inclusão: o gol da dignidade
Nesses quase 60 anos de vida, já fui campeão do mundo. Fiz mais de mil gols. Levei alegria para milhões de brasileiros em campos de futebol no mundo todo. Mas tem um gol que marquei fora das quatro linhas que mexe comigo profundamente: a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. A nossa LBI, que completa dez anos neste mês de julho.
Essa história começa muito antes da política. Começa quando a vida me deu o maior presente que eu poderia receber: a minha filha Ivy, que tem síndrome Down. Uma menina linda, esperta, carinhosa, a caçulinha dos meus seis filhos. Quando ela nasceu, minha visão de mundo mudou. Ser pai da Ivy me deu um olhar ainda mais profundo sobre o que é viver em um país onde a inclusão ainda é exceção, e não regra.
Foi por ela que entrei para a política. Eu queria lutar por um Brasil mais justo, mais acessível, mais respeitoso com as diferenças. E quando cheguei à Câmara dos Deputados, em 2011, minha prioridade era mudar a vida de milhões de pessoas como a Ivy. Poucos dias depois de assumir o mandato, conheci a proposta da Lei Brasileira de Inclusão. Um projeto que havia sido apresentado em 2003 por um grande amigo e senador que sempre admirei, Paulo Paim. Naquele momento, a proposta estava parada. Invisível. Como tantas pessoas com deficiência ainda são na nossa sociedade. Decidi que seria minha missão destravar essa pauta. E fui à luta.
Foram quatro anos tentando fazer a LBI avançar na Câmara. E quem conhece os bastidores da política sabe que aprovar um projeto como esse exige muito mais do que vontade. Exige articulação, insistência e, principalmente, acreditar. Durante todo o meu mandato de deputado, conversei com parlamentares, bati na porta de líderes partidários, pedi apoio. Não foi fácil. Às vezes parecia que não ia acontecer. Como num jogo difícil, quando a bola teima em não entrar. Mas quem me conhece sabe que nunca fui de desistir antes do apito final.
Em 2014, fui eleito senador. E levei comigo o compromisso de aprovar a LBI. No primeiro semestre de 2015, com o projeto recém-aprovado na Câmara, fui designado relator da proposta no Senado. Esse foi um dos momentos mais emocionantes dessa luta. Porque eu sabia que não estava relatando apenas um projeto de lei, eu estava ajudando a transformar a história da minha filha e de tantas famílias que ainda enfrentam, todos os dias, barreiras físicas, sociais e institucionais para garantir direitos que deveriam ser óbvios.
Uma dessas milhares de famílias é a da Elaine, uma jovem com síndrome de Down que conheci durante uma visita à APAE, em Brasília. Naquele dia, ela me recebeu com um abraço que guardo até hoje na memória. Nossa conexão foi imediata, ela parecia me reconhecer como alguém próximo, em quem podia confiar. Aquilo me tocou profundamente. Conversei com a minha equipe e decidi convidá-la para trabalhar comigo no gabinete. Foi o primeiro emprego da vida dela. A APAE acompanhou todo o processo, nos ajudou a adaptar a rotina e deu todo o suporte necessário. A Elaine aprendeu rápido, se desenvolveu e segue conosco até hoje, quase 15 anos depois, como parte fundamental da nossa equipe.
Mas o acesso ao mercado de trabalho, e a tantos outros direitos, ainda era uma realidade distante para a grande maioria das pessoas com deficiência. Aprovar a LBI era urgente. Era uma forma de honrar a vida da Ivy, da Elaine e de milhões de brasileiros que merecem ter seus direitos reconhecidos. A LBI, para mim, sempre foi sobre garantir dignidade, igualdade de oportunidades, visibilidade e respeito.
Com o apoio de muitos colegas, especialmente do senador Paulo Paim, conseguimos aprovar a LBI no plenário do Senado em 10 de junho de 2015. Menos de um mês depois, em 6 de julho, a Lei foi sancionada. Eu estava lá, no Palácio do Planalto. E posso dizer, sem nenhuma dúvida, que aquele dia foi um gol. Um golaço. Mas não foi só meu. Foi da Ivy, da Elaine, de mais de 14,4 milhões de brasileiros com deficiência e de 2,4 milhões de pessoas com autismo. Um gol da dignidade, da cidadania, da justiça.
Dez anos se passaram. E sigo, com o mesmo compromisso, lutando para que, cada vez mais, a LBI se torne realidade concreta na vida das pessoas. Ainda temos muitos desafios. A regulamentação da avaliação biopsicossocial, prevista na própria lei, até hoje não foi feita. Muita gente ainda desconhece os direitos garantidos pela LBI. E seguimos enfrentando preconceito, desinformação, ausência de políticas públicas. Ainda temos um Brasil que precisa avançar muito até que inclusão seja uma realidade para todos.
Mas eu não desisto. Porque cada avanço que conseguimos, seja na saúde, na educação, no transporte, ou na acessibilidade de ruas e prédios, é uma vitória para o Brasil que eu acredito. Um país onde ninguém fica para trás. Onde todos são iguais e têm os mesmos direitos.
Seguimos em frente. Porque o jogo continua. E eu ainda quero fazer muitos outros gols pela inclusão.
