7 de maio de 2026
Politica

PSOL, partido de 13 deputados, leva disputas políticas ao STF enquanto aprova pouco na Câmara

BRASÍLIA – Com baixa representação e posição política divergente à da maioria na Câmara dos Deputados, o PSOL tem se destacado mais no desempenho no Supremo Tribunal Federal (STF) do que no plenário da Casa legislativa.

Levantamento feito pelo Estadão mostra que a sigla, de apenas 13 parlamentares, aprovou na Câmara propostas de pouca relevância desde 2023, quando começou legislatura atual e o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Um exemplo é a instituição de agosto como o mês do combate à desigualdade.

Célia Xakriabá, do PSOL, discursa em votação de marco temporal, em 2023; tema foi alvo de disputa entre Congresso e Supremo.
Célia Xakriabá, do PSOL, discursa em votação de marco temporal, em 2023; tema foi alvo de disputa entre Congresso e Supremo.

Em contrapartida, o PSOL levou para o STF brigas políticas de grande repercussão. No caso mais recente, entrou com uma ação questionando a legalidade da decisão do Congresso Nacional de derrubar o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) definido pelo governo Lula.

O partido também questionou no Supremo a constitucionalidade do chamado orçamento secreto. A partir da ação, o ministro Flávio Dino restringiu o pagamento das emendas parlamentares à condição de transparência e rastreabilidade das transferências de recursos.

Em outra frente, o PSOL contestou a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que proíbe a utilização de uma técnica clínica, a assistolia fetal, para a interrupção de gestações acima de 22 semanas decorrentes de estupro. O ministro Alexandre de Moraes concordou com a legenda e concedeu liminar suspendendo a validade da norma.

O partido também questionou no STF a interpretação constitucional de que as Forças Armadas teriam poder moderador em conflitos entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. A ação foi arquivada sem julgamento por questões técnicas: o instrumento jurídico usado pelo PSOL não era o adequado para o pedido. No julgamento de uma ação proposta pelo PDT com o mesmo conteúdo, o tribunal concedeu o pedido.

A investida jurídica do partido no caso do IOF causou incômodo na alta cúpula do Centrão no Congresso, que cogita limitar o direito dos partidos de contestarem decisões legislativas no Supremo.

A prerrogativa de partidos políticos entrarem com ações no STF está prevista na Constituição Federal. Portanto, o mais provável é que a tentativa de mudança na regra seja apresentada em forma de proposta de emenda à Constituição (PEC).

Alcolumbre será autor de proposta que pretende limitar quais partidos podem contestar decisões do Congresso no STF.
Alcolumbre será autor de proposta que pretende limitar quais partidos podem contestar decisões do Congresso no STF.

Se o Congresso conseguir aprovar algo nesse sentido, provavelmente o caso acabará tendo a legalidade questionada no Supremo. Mesmo emendas à Constituição podem ser derrubadas no tribunal, se forem consideradas ofensas às cláusulas pétreas, o trecho da Constituição que não pode sofrer mudanças.

O principal patrocinador da iniciativa é o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), que será o autor de uma proposta legislativa ainda a ser discutida entre os líderes na próxima semana.

“Esse é um problema seríssimo que nós temos no Brasil”, afirmou Alcolumbre, em sessão plenária nesta quarta-feira, 2. “Todo mundo pode acessar o Supremo e depois ficam as críticas aqui em relação às decisões do Poder Judiciário brasileiro, da Suprema Corte.”

Esse projeto afetaria especialmente o PSOL e o Novo – partidos que têm bancadas expressivamente menores em comparação às do PT, do PL e de legendas do Centrão. No Judiciário, as duas siglas conseguem mover ações que vão contra a corrente da maioria no Congresso.

Na visão de deputados do Centrão, o PSOL age como “linha auxiliar” do PT do governo e é usado como artífice para não atribuir o PT a pecha de contestador das decisões do Legislativo.

“O PSOL virou um auxiliar do PT. Não há nada de pejorativo, mas o PT tem funções de governo, ele cumpre missões para o governo no Supremo, entrando com ações diversas para tentar um terceiro turno na disputa do Legislativo”, diz o deputado Mendonça Filho (União-PE), apoiador da ideia de Alcolumbre.

Apesar de terem visões políticas diametralmente opostas, PSOL e Novo concordam, por razões diferentes, de que o projeto não deveria prosperar.

“Não faz sentido. Teremos partidos de diferentes categorias no Congresso?”, questiona Marcel van Hattem (RS), líder do Novo na Câmara. “O problema não está aí. O PSOL ingressa com ações políticas, não judiciais, e faz tabelinha com o Supremo.”

Um levantamento feito pelo partido Novo mostra que, desde 1988, entidades corporativas lideram como principais autoras de ações no STF, totalizando 2.583 processos. Em seguida aparecem a Procuradoria-Geral da República (1.756) e só então os partidos políticos (1.753).

“Impedir que partidos políticos devidamente registrados recorram ao STF é institucionalizar o monopólio das maiorias e enfraquecer os mecanismos de controle”, afirma Eduardo Ribeiro, presidente do Novo.

“Eu acho essa ideia (de limitar o acesso dos partidos ao STF) absurda. Se acionamos várias vezes o Judiciário, entendemos que o Centrão e o Congresso desrespeitam a Constituição”, diz Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). É uma ideia corporativista do Alcolumbre de proteger o Centrão e quem controla a pauta e muitas vezes age em contrariedade à Constituição.”

'Se acionamos várias vezes o Judiciário, entendemos que o Centrão e o Congresso desrespeitam a Constituição', diz Henrique Vieira.
‘Se acionamos várias vezes o Judiciário, entendemos que o Centrão e o Congresso desrespeitam a Constituição’, diz Henrique Vieira.

Deputados do PSOL dizem que com o Congresso dominado pelo Centrão, há poucas oportunidades para propostas do partido prosperarem no Legislativo federal.

“A Câmara é controlada pelo Centrão e com forte influência da extrema direita. Isso já explica porque o PSOL, partido de esquerda que não tem tantos deputados”, afirma Vieira. “É uma pauta que enfrenta bloqueios de quem comanda, Arthur Lira, Hugo Motta e interesses que eles representam. Não é surpreendente que a gente encontre dificuldade.”

Em 2025, o partido aprovou três projetos de lei e apresentou 1.667 propostas; em 2024, foram também três aprovações ante 2.462 matérias apresentadas; e em 2023 foram cinco textos que passaram pelo crivo do plenário, enquanto deputados fizeram 2.477 projetos.

O cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que é comum que partidos minoritários com boa estrutura e capazes de promoverem o debate público usem o Poder Judiciário.

Teixeira destaca que foi pela via do Poder Judiciário que temas como política de cotas e casamento homoafetivo chegassem à legislação brasileira. Ele pondera, porém, que é preciso parcimônia.

“Cercear o acesso ao Judiciário pelos partidos é um risco à própria democracia”, diz o cientista político. “Agora não dá para recorrer ao Judiciário toda hora em caso de derrota.”

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *