Trump faz com Bolsonaro o que Lula fez com Cristina Kirchner
O presidente Lula, em tese, teria razão quando um líder de uma grande potência intervém em assuntos internos, como Donald Trump usar suas redes sociais para considerar Jair Bolsonaro um perseguido político. Porém, ele queimou a língua.
O mesmo Lula, semana passada, estava na Argentina a defender a inocência da ex-presidente Cristina Kirchner, condenada por corrupção. Populismo é o nome disso tudo. Quando mandatários se acham acima das liturgias e protocolos para dizer o que querem num suposto contato direto com a população – algo que as redes sociais só fizeram estimular.

Hoje, Lula deu o troco imediato em Trump. Invocou democracia e soberania. A frase ficaria muito bem se tivéssemos como presidente da República um estadista. Mas, como a incoerência é explícita, a briga soa mais como disputa entre os valentões. Aliás, Bolsonaro não estaria atrás nessa disputa de egos inflados desses líderes que não conseguem se conter. Que tratam a própria impulsividade como qualidade política.
Existem brigas em que ninguém tem realmente razão. Trump, por exemplo, escandaliza ao clamar pela inocência de um notório golpista, que só não foi à frente na sua tentativa de instalar uma ditadura no Brasil porque faltou apoio dos seus. Lula, por outro lado, só não intervém por aí em todos os conflitos mundiais porque não tem força para fazê-lo.
Deixou de lado a parceria com as democracias liberais para participar do clube de grandes e pequenas e ditaduras que formam os BRICS, por coincidência reunidos no Brasil (fora os poderosos como China, Rússia e o centro das atenções, Irã).
Mas há outro alvejado nessa diatribe de Trump: o Supremo Tribunal Federal. Se por um lado o chamado bolsonarismo faz uma campanha insidiosa contra nossas instituições, por outro, nossos togados estão em descrédito com a maioria da sociedade (assim dizem as pesquisas) por interferências excessivas, exibicionismo e até mesmo uma certa vocação para a censura.
Em um mundo que gira tão rápido, agora é ficar atento às consequências. Os Estados Unidos irão dar um novo passo e tentar punir algum ministro do Supremo é uma hipótese factível. Outra possibilidade é essa crise também virar espuma, como tantas outras criadas por Trump. Mente quem sabe o futuro. Mesmo que Lula não tivesse visitado Kirchner, Trump provavelmente faria a mesma coisa. Mas seria menos uma incongruência para lidar.
