10 de maio de 2026
Politica

Orçamento secreto era organizado como ‘conta de padaria’ segundo interesses não republicanos, diz PF

SÃO PAULO E BRASÍLIA — A investigação que levou a Polícia Federal a fazer buscas nesta sexta-feira, 12, em endereços ligados à assessora parlamentar Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, braço-direito do ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL), ajudou os investigadores a descortinar como o orçamento secreto vinha sendo operado nos bastidores da Casa Legislativa.

Anotações obtidas pela PF reforçaram as suspeitas de que os recursos públicos eram destinados conforme interesses privados dos deputados e sem compromisso com projetos de longo prazo. O orçamento secreto foi revelado pelo Estadão.

Mariângela é apontada como a grande responsável pelo controle do orçamento na gestão de Arthur Lira. A Polícia Federal acredita que ela tenha agido a mando do ex-presidente da Câmara. O Estadão pediu manifestação do deputado e busca contato com a assessora.

Um dos manuscritos obtidos pela PF mostra que recursos inicialmente destinados ao município de Nova Russas, no Ceará, foram redirecionados a Reriutaba, no mesmo Estado, com base em um pedido informal do deputado Júnior Mano (PSB-CE), a partir de um ajuste com autoridades locais.

“A anotação sinaliza justamente a ‘troca’ da alocação do recurso pelo parlamentar, que aparentemente foi repassada à investigada para ajustamento orçamentário”, concluiu a PF.

Júnior Mano foi alvo de Operação Under, deflagrada em julho, por suspeita de desviar recursos de emendas. Ele nega irregularidades.

Anotação Mariângela Fialek
Anotação Mariângela Fialek

Ao pedir autorização para as buscas contra a assessora, cumpridas nesta sexta, a Polícia Federal destacou “o incomum desapego à formalidade na formulação orçamentária”.

“Uma anotação à mão, realizada de maneira rudimentar, foi responsável pela realocação de recursos de um município para outro. Lamentavelmente, não há como não comparar a maneira de controlar e organizar o orçamento secreto coordenado por Tuca a uma ‘conta de padaria’. A anotação transparece que milhões em recursos públicos eram direcionados a partir de comandos verbais, sem qualquer preocupação com projetos ou interesses republicanos de fato”, afirmou a Polícia Federal na representação.

Os recursos redirecionados eram vinculados à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), onde Mariângela mantinha assento no conselho fiscal. Depois que Arthur Lira deixou a presidência da Câmara dos Deputados, a assessora foi transferida para um cargo na liderança do PP.

A Polícia Federal afirma que essa e outras anotações comprovam que havia, na Câmara, uma “subdivisão, organização e loteamento de recursos conforme diretrizes não republicanas”.

“Várias tabelas confirmam que parlamentares tinham ‘reservas’ de valores de emendas a serem distribuídas, as quais era controladas ou passavam pelo crivo de Tuca”, afirmam os investigadores.

“A projeção mais evidente é de que estamos falando de emendas vinculadas ao orçamento secreto distribuídas desigualmente entre parlamentares, conforme critérios não claros, e controladas pela ex-assessora da presidência.”

 

 

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