6 de maio de 2026
Politica

‘Teremos um manicômio tributário incorporado a outro no período de transição’, diz presidente da CNI

A partir desta quinta-feira, 01 de janeiro, começa a fase de transição da reforma tributária com dois novos tributos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Por enquanto eles não serão descontados, mas informados. E o Brasil ficará convivendo em paralelo com os impostos atuais – ICMS, IPI entre outros.

Se antes o modelo de tributação já era considerado de difícil compreensão, agora o País passará por um longo período de insegurança e questionamentos jurídicos. “Teremos um manicômio tributário que incorporou ainda mais outro manicômio, até que isso transite, até dúvidas serem tiradas, até que todos esses fundos de gestão de subsídios sejam feitos. E ainda há muitas regulamentações a serem feitas”, afirma o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, em entrevista exclusiva à Coluna do Estadão.

Mas não é apenas a transição da tributária que preocupa para 2026. Alban avalia que o Brasil “exagerou na política monetária” e avalia que os juros continuarão altos, dificultando investimentos. “Possivelmente ainda não vão baixar em janeiro”. Ele nega estar pessimista, mas admite que o ano eleitoral amplia o alerta sobre os riscos de afrouxamento da responsabilidade fiscal. “Nós temos eleições muito amplas, onde as propostas populistas tendem a encontrar um terreno fértil”, observa.

Ricardo Alban diz que a CNI terá uma atitude propositiva diante dos candidatos e defende a busca por um nome que saia da radicalização do “nós x eles”. “A polarização sempre preocupa porque eu não entendo que com ‘nós x eles’ construímos uma nação”, conclui.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista

Ricardo Alban, presidente da CNI
Ricardo Alban, presidente da CNI

Regulamentação da Reforma Tributária

(Risco e insegurança jurídica) Esse é um ponto. Pior que o tempo está ficando curto e, ainda por cima, nesse intervalo tem o ano eleitoral. Haverá convivência com o regime duplo e, seguramente, vão surgir interpretações equivocadas, por ser algo novo depois de tantas décadas numa cultura tributária anterior.

Então nos preocupa muito, principalmente quando a gente vai para o universo de pequenas e médias empresas, nas quais não tem estrutura tributária. Elas vão ficar vulneráveis, não só a uma ação talvez de interpretação da fiscalização ou até mesmo de consultores, assessores ou da sua própria estrutura. Nós temos um conselho de assuntos fiscais e tributários que é coordenado pelo ex-senador e nosso presidente emérito, Armando Monteiro, onde estamos muito preocupados com todo esse acompanhamento, para que a gente possa tentar ser equitativo nas sugestões e nos ajustes que serão necessários. Precisamos de boa vontade para que os órgãos públicos, a Receita Federal, possam fazer os ajustes necessários, que certamente precisarão.

Manicômio tributário

Agora (no período de transição, com dois regimes), teremos um manicômio tributário que incorporou ainda mais outro manicômio, até que isso transite, até dúvidas sejam tiradas, até que todos esses fundos de gestão de subsídios sejam feitos. E ainda há muitas regulamentações a serem feitas. Tem uma coisa que nos preocupa muito. Nós somos um País heterogêneo, com regionalidades muito distintas e que precisamos mitigar essas diferenças. E você não consegue mitigar diferenças tratando desiguais de forma igual. Nossa preocupação com esses fundos que vão ser administrados. Por exemplo, governadores de estados que não são tão industrializados. Esse fundo pode ser usado para obras de infraestrutura ou para atração de investimentos e compensação de incentivos. A natureza política de uma gestão política força muitas vezes a pensar no imediatismo, no mandato. Que uma parte desses recursos pode ser direcionado muito mais preferencialmente para obras de infraestrutura, que são importantes, e não para retenção e atração de investimentos para uma região que precisa se desenvolver. E com isso nós vamos ter uma desindustrialização dessas regiões que já são menos industrializadas.

Cenários para 2026

Eu não diria (que traço um cenário) pessimista. Eu diria realista com os fatos que estão acontecendo. Nós definitivamente exageramos na política monetária. O efeito sobre a economia está chegando e a reversão dele não é fácil, porque nós temos projetos que precisam ser estruturados. Obviamente que o índice de investimento no Brasil nos surpreendeu em 2025, mas porque tiveram também importações de plataformas de petróleo e outras coisas mais. Mas a nossa percepção é que os juros possivelmente não vão baixar em janeiro. Esse retardo não nos ajuda.

Um maior (afrouxamento) no compromisso com a responsabilidade fiscal e a racionalidade dos gastos também é preocupante. Por quê? Porque é um ano eleitoral. E isso normalmente tende a ser pressionado, qualquer que seja o pensamento político. Isso vai acontecer. E nós temos eleições muito amplas, onde as propostas populistas tendem a encontrar um terreno fértil.

Um exemplo é o avanço na aprovação da redução da escala 6×1. Porque nunca foi 6×1, é cinco e meio por um e meio. Como é que pode ter essa discussão num País onde se propaga aos quatro ventos o pleno de emprego, onde temos um custo Brasil que conspira contra a nossa competitividade e onde temos um déficit fiscal problemático que vai ter que ser encarado muito seriamente em 27. Isso vai prejudicar ainda mais as contas públicas. Então, não era para o País ocupar esse tempo com esse tipo de discussão. Tem que se preocupar com o planejamento futuro.

Eleições 2026

(O papel da CNI em relação aos candidatos). Propositivo, com certeza, construtivo. Estamos trabalhando o que chamamos de Pacto Brasil mais 25. Teremos, em julho, com os pré-candidatos a apresentação das nossas propostas. Estamos entregando a todos os poderes, inclusive ao governo atual, ao Legislativo, ao Judiciário. E vamos lutar para que tenhamos propostas de Brasil. A polarização sempre preocupa porque eu não entendo que com ‘nós x ele’ construímos uma nação. Sempre que foi usado – a história medieval, a história dos próprios Estados Unidos, quando havia federados e confederados, todas as histórias de qualquer civilização, quando existia nós e eles, esse País nunca se transformou em uma nação.

Candidato fora do “nós x eles”

Eu acho que (algum candidato conseguirá sair do nós X eles) se a sociedade cobrar. Hoje talvez nós tenhamos 20 ou 25% querendo nós, 25% querendo eles, mas tenho a impressão que temos uma boa quantidade, se não metade ou um pouco mais, querendo um país de todos.

 

 

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