18 de abril de 2026
Politica

‘Vaquinha’ de R$ 700 garantiu roupas das Pernambucanas e doces para ‘delegada do PCC’ na prisão

Uma ‘vaquinha’ de R$ 700 levou um pouco de conforto para a delegada da Polícia Civil de São Paulo, Layla Lima Ayub, de 36 anos, a ‘delegada do PCC’, que amarga regime de prisão temporária desde 16 de janeiro na carceragem da Delegacia do Cambuci, região central da capital paulista. Ela está sob suspeita de promover a defesa de faccionados ligados ao narcotráfico no Pará. Nesta sexta, 13, a Justiça prorrogou a prisão temporária de Layla por mais 30 dias. O Estadão pediu manifestação da defesa.

Isolada, distante da família, separada do seu amor – Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’, liderança do PCC no Pará e que também está preso, mas em outro endereço, e que também teve a prisão esticada por mais um mês-, Layla chegou à cela do 6.º Distrito Policial praticamente com a roupa do corpo depois de ter sido capturada na Operação Serpens, missão integrada da Corregedoria da Polícia Civil e dos promotores do Gaeco, grupo de combate ao crime organizado.

Delegada Layla Lima Ayub, de 36 anos, sob custódia da Polícia Civil logo após a prisão realizada na manhã do último dia 16
Delegada Layla Lima Ayub, de 36 anos, sob custódia da Polícia Civil logo após a prisão realizada na manhã do último dia 16

Logo, um pessoal se compadeceu da situação de Layla e surgiu a ideia para uma ‘vaquinha’. Com o dinheiro arrecadado, ela recebeu assim que chegou à prisão um ‘jumbo’ modesto, mas que deu para o gasto. Roupas novinhas adquiridas nas Pernambucanas, incluindo moletom, peças íntimas, calça e meias. Afora umas guloseimas, entre salgados e docinhos.

A ‘delegada do PCC’ é uma surpresa para os policiais que a mantêm sob custódia há mais de três semanas. Seu comportamento é tido como ‘exemplar’. Segue uma rotina tranquila, apesar do inconformismo e do ambiente em que se encontra. Ocupa-se de leituras – livros e documentos – e aceita sem queixumes o ‘bandeco’, a comida do sistema que lhe é servida diariamente na prisão.

Chama a atenção de quem convive com a ‘delegada do PCC’ a tranquilidade que ela exibe na carceragem onde outras mulheres estão recolhidas também provisoriamente, sob acusação da prática de delitos diversos, tais como furto e tráfico.

Layla chegou à cela do 6.º Distrito Policial praticamente com a roupa do corpo depois de ter sido capturada na Operação Serpens
Layla chegou à cela do 6.º Distrito Policial praticamente com a roupa do corpo depois de ter sido capturada na Operação Serpens

Na condição de policial, Layla Ayub está separada das vizinhas. De modo que evita-se, com tal medida, eventuais constrangimentos ou hostilidades à delegada.

Enquanto aguarda sua defesa definir uma estratégia para tentar recuperar a liberdade, Layla vai tocando a vida no Cambuci. Alimenta-se bem, é educada, não apresenta quadro depressivo, relatam policiais ouvidos pelo Estadão. ‘Suave’, como se diz por aqui. Troca idéias amistosamente com policiais e não provoca nenhum tipo de balbúrdia.

Ex

A prisão de Layla foi decretada pela 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens da Capital. A investigação teve início a partir de uma denúncia anônima encaminhada à Corregedoria da Polícia Civil, que atribui à delegada pelo menos quatro crimes – exercício irregular da profissão, integrar organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico.

‘Dedel’ foi preso por tráfico e acusado de exercer a liderança do PCC em Marabá
‘Dedel’ foi preso por tráfico e acusado de exercer a liderança do PCC em Marabá

Recém-empossada como delegada, Layla foi presa em um sobrado da zona Oeste da cidade, ao lado do namorado, o ‘Dedel’, líder do PCC no Pará. Com Layla os agentes apreenderam dois celulares e um terceiro chip.

Ela tomou posse no dia 19 de dezembro em solenidade no Palácio dos Bandeirantes prestigiada pelo governador Tarcísio de Freitas. No dia 28, porém, Layla participou por vídeo conferência de uma audiência de custódia para tentar soltar quatro faccionados do Comando Vermelho, aliado de ‘Dedel’, seu namorado.

Interrogada na Corregedoria da Polícia de São Paulo, ela disse que cometeu ‘uma bobeira’ ao participar, como advogada, da audiência realizada na Justiça de Marabá, no Pará, apenas dez dias depois de ter sido empossada delegada no grande evento na sede do governo paulista.

'Dedel' é namorado da delegada de carreira da Polícia paulista, Layla Lima Ayub
‘Dedel’ é namorado da delegada de carreira da Polícia paulista, Layla Lima Ayub

Na ocasião em que depôs, a ‘delegada do PCC’ não escondeu sua irritação com o ex-marido, que é delegado de Polícia no Pará. Segundo investigadores, Layla estaria indignada com o ex, que a teria denunciado em retaliação ao fato de ter sido trocado pelo faccionado.

A primeira informação sobre as ligações perigosas de Layla com o crime chegou de forma anônima aos promotores do Gaeco – braço do Ministério Público de São Paulo que combate crime organizado – e à Corregedoria da Polícia. Mas ela suspeita que seu ex ‘ímpulsionou’ as denúncias que a colocaram na prisão. Ele teria transmitido dados importantes sobre os movimentos de Layla na defesa de faccionados.

Layla informou que tem uma filha de 18 anos, de relacionamento com um criminoso no Espírito Santo que, alguns anos depois, foi assassinado. Ela contou que fez concurso para a PM capixaba, onde chegou à patente de cabo. Conheceu, então, um policial militar, com quem se casou.

A ‘delegada do PCC’ é uma surpresa para os policiais que a mantêm sob custódia há mais de três semanas
A ‘delegada do PCC’ é uma surpresa para os policiais que a mantêm sob custódia há mais de três semanas

Tempos depois, o marido dela passou no concurso para delegado no Pará. Ela pediu desligamento da PM e o acompanhou. Formou-se em Direito e abriu um escritório em sociedade com uma colega.

Como advogada passou a defender Jardel ‘Dedel’, preso por tráfico e acusado de exercer a liderança do PCC em Marabá. Ela disse que se ‘encantou’ pelo cliente da facção. Na Justiça, Layla conseguiu liberdade provisória para ‘Dedel’. Separou-se do delegado e foi viver com o faccionado.

No ano passado decidiu fazer concurso para delegada em São Paulo. O ex também prestou o mesmo concurso, mas não passou.

Sobre a audiência de custódia no dia 28, na qual defendeu faccionados do CV, ela alegou que já havia entrado com pedido de cancelamento de sua matrícula na OAB. Mas, mesmo sem obter formalmente a quebra do vínculo com a entidade, ela foi à audiência. “Dei bobeira.”

Seu namorado, o ‘Dedel’, que também foi preso na Operação Serpens, passou duas semanas na carceragem do 26.º Distrito Policial, no Sacomã. Ante o risco de ser resgatado por ‘soldados’ do PCC, ele foi transferido para um presídio com esquema mais rígido de segurança, o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros.

 

 

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