17 de abril de 2026
Politica

Exército e Ministério do Esporte levam à AGU briga por dívidas e abandono de estrutura olímpica

BRASÍLIA – Uma disputa entre o Ministério do Esporte e as Forças Armadas sobre quem é o responsável pelos custos de manutenção da estrutura esportiva construída no Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016 foi parar em uma mesa de conciliação da Advocacia-Geral da União (AGU). A decisão sobre quem tem razão nessa briga entre duas áreas do governo pode levar até dois anos. Enquanto isso, instalações que custaram cerca de R$ 1 bilhão estão fechadas ao grande público e em processo de deterioração.

As Forças vinham reclamando de dívidas que, somadas, chegavam a R$ 54,5 milhões até o fim do ano passado. O passivo foi causado pela suspensão de repasses da pasta do ministro André Fufuca, que chegou a dizer que os custos de manutenção eram “muito altos”.

Em nota, a pasta alegou que os valores não estão previstos no Orçamento e que busca uma solução (leia mais abaixo). O Exército afirmou que aguarda a definição das “tratativas em curso”.

O caso está na Câmara de Mediação e de Conciliação da Administração Pública Federal (CCAF), da AGU. A instância não tem poder deliberativo e, por conta disso, servidores a par do impasse não descartam a possibilidade de o tema acabar judicializado.

Arquibancada da arena de hóquei sobre a grama, no Parque Olímpico de Deodoro, na zona oeste do Rio de Janeiro; foto de março de 2025
Arquibancada da arena de hóquei sobre a grama, no Parque Olímpico de Deodoro, na zona oeste do Rio de Janeiro; foto de março de 2025

A situação mais complicada é a do Parque Olímpico de Deodoro, na Zona Oeste do Rio. O complexo, com capacidade para receber mais de dez modalidades esportivas, fica fora de perímetros militares, mas era gerido pelo Exército graças a um acordo de cooperação de 2017. O custo de manutenção anual de cerca de R$ 20 milhões era coberto pelo Esporte.

Os repasses vêm sendo minguados desde 2024, quando o Ministério do Esporte sinalizou desinteresse em manter o acordo de cooperação com o Exército. Após anos de prorrogações, a pasta optou por não renovar a parceria, encerrada em fevereiro de 2025.

Ministério do Esporte sinalizou ao Ministério da Defesa, em maio de 2024, que não renovaria acordo para manutenção do Parque Olímpico de Deodoro
Ministério do Esporte sinalizou ao Ministério da Defesa, em maio de 2024, que não renovaria acordo para manutenção do Parque Olímpico de Deodoro

Os militares avaliaram que o cenário criou insegurança jurídica, além dos problemas de repasses. Com isso, a decisão foi a de suspender treinamentos, competições e eventos.

Em meados de abril, os ministérios do Esporte e da Defesa destravaram as negociações para retomar a manutenção de equipamentos esportivos do legado olímpico. Um acordo chegou a ser rascunhado, mas ele não foi concretizado porque não houve uma definição sobre como os passivos seriam resolvidos.

O Exército avaliou que tem gargalos orçamentários e não poderia assumir as dívidas de anos anteriores. Sem avanço, os militares decidiram levar o caso à CCAF da AGU no fim de 2025.

Arena Wenceslau Malta, no Parque Olímpico de Deodoro, tem sinais de degradação em estrutura do teto; foto de março de 2025
Arena Wenceslau Malta, no Parque Olímpico de Deodoro, tem sinais de degradação em estrutura do teto; foto de março de 2025

O processo de conciliação é classificado pelo governo como “ato preparatório” e por isso não transcorre de forma pública. Ao Estadão, a AGU informou que “não existe um prazo determinado” para a CCAF concluir a mediação. As negociações “estão em curso” e podem durar de “seis meses a dois anos”.

As instalações esportivas geridas pela Marinha e pela Aeronáutica também estão envolvidas no imbróglio e têm dívidas. Essas áreas, contudo, são menores, ficam dentro de unidades militares e usadas por civis e militares para preparações variadas. O ministério de Fufuca também fazia repasses mensais para manutenção. Ambas, juntas, consumiam R$ 4,9 milhões por ano.

O parque de Deodoro tem 496 mil metros quadrados, o equivalente a cerca de 70 campos de futebol, e custou R$ 951 milhões, entre 2004 e 2016, em valores não atualizados.

O espaço abrange o Centro Militar de Tiro Esportivo, o Centro de Pentatlo Moderno, o Centro de Hóquei sobre a Grama, o Parque Equestre (para provas de salto, adestramento e equitação) e a Arena Wenceslau Malta – esta é uma instalação multiuso com capacidade para eventos com até 7 mil pessoas e apta a receber eventos internacionais de judô, taekwondo e jiu-jitsu. Nos Jogos de 2016, sediou competições de basquete e esgrima.

Por serem usadas para esportes específicos e terem equipamentos exigidos para competições internacionais, a manutenção é considerada cara e especializada. As arenas de tiro esportivo e hóquei sobre a grama, por exemplo, estão perdendo a capacidade de serem utilizadas.

Em nota, o Ministério do Esporte afirmou que “ambas as partes buscam uma solução para este passivo, com a ajuda da Câmara de Conciliação da AGU” e, enquanto isso, “a manutenção do legado olímpico segue sob a responsabilidade do Ministério da Defesa”.

O Exército informou que “reitera seu compromisso com o desenvolvimento do esporte nacional e a valorização da infraestrutura esportiva” e que está “aguardando a definição das tratativas em curso” na CCAF.

 

 

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