Convocado, Gilmar Mendes entra em campo para travar investigação do caso Master
Gilmar Mendes teve de entrar em campo. Dias Toffoli tentou controlar o bicho; Alexandre de Moraes ainda tenta domá-lo. Davi Alcolumbre mostra que nem o exercício autoritário do poder – o rolo-compressor com que governa o Congresso – consegue dirigir o ímpeto imprevisível de uma crise que veio para ficar. Não tem a caneta togada capaz de decidir como bem quiser, quando quiser. Gilmar Mendes tinha de entrar em campo. Foram chamá-lo. Ele veio.
O caso Master veio para ficar. É incontrolável. Empurra-pressiona tudo em Brasília e a partir de Brasília – e desafia a operação abafa contra as investigações. Sempre tendente a prosperar e se impor, dado o volume de graúdos desfilantes nos celulares de Vorcaro e seus laranjas, o acordo por acomodação – liderado pelo Supremo de nossos salvadores – nunca esteve tão ameaçado; mesmo diante da blitz intimidatória que o pescador Xandão botou na rua. O ministro faz pesca probatória a partir de indícios de sigilos fiscais vazados. É provável que capture a solidariedade dos pares. Não seria suficiente.

Pela primeira vez em quase sete anos, até Moraes tem receios – porque sabe onde e com quem fumou charutos, sabedor também de que essa fumaça escapou do bunker para, havendo República, logo aparecer em algum relatório policial, talvez num como aquele em que a Polícia Federal listou indícios de crimes cometidos pelo colega dublê de juiz e empresário do ramo hoteleiro. O caso Master exigia a intervenção destemida do decano. Talvez não haja República. Há o decano.
Há muita informação represada, aquilo que o cadeado de Dias Toffoli trancara. A PF só agora começa a periciar esse material. Não será apenas o anulador-geral da República a figurar, entre os empresários supremos, como palestrante para Vorcaro. André Mendonça, noutra frente, restituiu a autonomia do Coaf, restabelecido o fluxo rotineiro dos relatórios de inteligência financeira – que, relativamente ao Master, Dias Toffoli determinara que lhe fossem remetidos. O decano tinha de vir.
Algo se destrava. Ou destravava. O Senado afrontou Alcolumbre e transformou a CPI do Crime Organizado – está aí a operação Carbono Oculto para justificar o movimento – em CPI do Master, aprovada a quebra dos sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático da empresa por meio da qual Dias Toffoli fora sócio de uma fachada de Vorcaro.
O caso exigia a intervenção do decano – e Gilmar Mendes interveio. Ele deita a regra: só quem pode quebrar sigilo de empresa de ministro do Supremo é ministro do Supremo. Só quem pode quebrar sigilo de empresa de ministro do Supremo é outro empresário ministro do Supremo. A Maridt foi chamá-lo. Seus advogados cavaram processo antigo, arquivado. Foi escolhido. E resolveu.
Há lotes de informações represadas e várias frentes a serem investigadas. Muita coisa pôde andar a partir do afastamento de Dias Toffoli da relatoria do caso Master. O Supremo nos informa o que não andará – não sem a resistência xandônica: a apuração sobre as relações de Dias Toffoli (e de Moraes) com a galera de Vorcaro. Gilmar Mendes chegou.
