CPI do INSS aponta pagamentos de R$ 28 milhões da J&F a empresas de lobista investigado por fraudes
BRASÍLIA – A CPI do INSS obteve documentos que apontam R$ 19,2 milhões em pagamentos da J&F Participações, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, a uma empresa que tem como sócio oculto o empresário Danilo Trento, apontado como um dos beneficiários das fraudes a aposentados. Como revelou o Estadão, a T5 Participações está em nome de uma mulher que foi beneficiária do Bolsa Família, mas Trento admite ser o dono real da firma.
A comissão também constatou que a J&F repassou outros R$ 36,5 milhões à CCT Consultoria e Gestão, entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, e ela fez um “escoamento célere e relevante” de pelo menos R$ 9,4 milhões desse montante para empresas ligadas a Danilo Trento, ao próprio empresário e à mulher dele. Portanto, ao menos R$ 28,6 milhões pagos pela empresa dos Batista chegaram ao lobista.
Em nota, a J&F informou que contratou as empresas para “serviços de estudos de mercado e prospecção de clientes” e que os contratos foram rescindidos “assim que vieram a público as menções ao ex-sócio das empresas na CPMI do INSS” (leia mais abaixo). Também procurado, Danilo Trento não deu retorno. A reportagem não conseguiu localizar Lucas Pereira de Oliveira, que aparece como dono formal da CCT.
Os valores dos pagamentos estão em relatórios produzidos pelo relator da CPI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), e apresentados, nesta terça-feira, 3, nos requerimentos por meio dos quais ele pede a convocação de José Antonio Batista Costa, presidente da J&F, e a quebra de sigilos bancário e fiscal da empresa.

O grupo J&F é o controlador do banco digital PicPay. Segundo a CPI, há “nexo temporal” entre esses pagamentos e a criação do Programa Meu INSS Vale+, lançado pela autarquia previdenciária durante a presidência de Alessandro Stefanutto, preso em desdobramento da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal. A suspeita da cúpula da CPI é a de que os pagamentos viabilizaram a criação do programa que atendia a interesses do PicPay.
O Vale+ oferecia a antecipação de parte dos valores da aposentadoria para cobertura de gastos emergenciais. Lançado no fim de 2024, permitiu a antecipação de R$ 150. Em fevereiro de 2025, ampliou para até R$ 450. O banco passou a cobrar taxa de até 10% do valor adiantado. O programa foi encerrado em maio de 2025 após denúncias de irregularidades.
A modalidade de antecipação do benefício previdenciário foi tema do depoimento prestado em fevereiro pelo presidente do INSS, Gilberto Waller, que criticou a medida.
“Esse programa não tem previsão de desconto na lei, ele não tem nenhuma forma de sustentabilidade, até mesmo pela questão do autoendividamento. Imagine que o nosso segurado tem um salário, uma aposentadoria e uma pensão de valor médio de R$ 1,8 mil. A margem do nosso consignável fica até 45%. Se tirar mais R$ 450 dele, ele não tem dinheiro para sobreviver ao final do mês”, disse.
Uma das empresas de Trento que recebeu os recursos, a BGS Gestão em Saúde, repassou R$ 4,3 milhões para a empresa de Thaisa Hoffmann Jonasson, mulher de Virgílio Oliveira Filho, ex-procurador-geral do INSS, que também está preso. Além disso, a CPI detectou que Danilo Trento pagou passagens de avião para Virgílio no mesmo dia em que Alessandro Stefanutto publicou a medida que instituiu o Meu INSS Vale+.
“Essas relações, sejam de reuniões e viagens, sejam de transações financeiras, evidenciam o forte vínculo com os altos dirigentes do INSS, indicando que Danilo Trento utiliza suas redes e empresas para a ocultação e lavagem de capitais advindo de diversas fontes, incluindo do esquema de corrupção dos descontos associativos”, destacou o relator da CPI.
Danilo Trento foi investigado em 2021 pela CPI da Covid, que pediu o indiciamento dele por crimes como fraude em contrato, organização criminosa e improbidade administrativa. Ele foi apontado como intermediário de um contrato superfaturado para a compra de vacinas pelo Ministério da Saúde no governo de Jair Bolsonaro.
Trento repassou a T5 para o nome de Francine da Rosa, uma ex-beneficiária do Bolsa Família e do Auxílio Emergencial com residência na cidade de Tubarão, em Santa Catarina. A casa dela é simples e fica em uma rua de terra batida.
As cotas de ambas as firmas foram repassadas a ela de forma gratuita, sem nenhuma cobrança. Ao Estadão, o empresário admitiu que é o verdadeiro dono das empresas.
“Por que está no nome dela? Tinha uma ação que ia tomar uma cota. Aí o advogado orientou que tirasse e colocasse aqui (no nome de Francine). A empresa foi minha, é minha, ela está em trabalho já de voltar para mim.”
Segundo as investigações da Polícia Federal e da CPI do INSS, Danilo Trento é ligado a Maurício Camisotti, apontado como sócio oculto de associações que realizavam descontos associativos ilegais a aposentados. Além da suspeita de operar por meio de laranjas, Trento é suspeito de operacionalizar pagamentos de propinas.
Em nota, a J&F afirmou que contratou a BGS e a T5 para prospecção de clientes e estudos de mercado e que a rescisão dos contratos foi determinada pelo departamento de compliance quando surgiram menções a Danilo Trento na CPI do INSS.
“Uma investigação interna independente foi conduzida e não identificou qualquer irregularidade. Os serviços foram devidamente prestados e os pagamentos foram realizados conforme a legislação, por meio da emissão de notas fiscais e com o recolhimento dos respectivos tributos”, frisou a J&F.
