7 de março de 2026
Politica

‘Sicário’ tinha medo de voltar à prisão e se aproximou de Vorcaro através de Zettel

ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE – Luiz Phillipi Machado Moraes Mourão, que ficou conhecido como o “Sicário” do banqueiro Daniel Vorcaro, demonstrava a interlocutores nos últimos anos que tinha ojeriza a ser preso novamente. Aos 43 anos, ele morreu após atentar contra a própria vida em uma cela da Polícia Federal, que o prendeu na quarta-feira, 4, em Belo Horizonte, na terceira fase da Operação Compliance Zero.

Com uma longa ficha policial, Mourão se aproximou do ex-presidente do Banco Master por meio do empresário Fabiano Zettel. Além de amigo de longa data do cunhado de Vorcaro, ele também era frequentador assíduo dos cultos ministrados por Zettel na Igreja Batista da Lagoinha. A relação de Mourão com a família Vorcaro se consolidou após o amigo se casar em 2017 com Natália Vorcaro, irmã de Daniel.

A morte de Luiz Phillipi foi atestada oficialmente nesta sexta-feira, após a conclusão do protocolo de morte cerebral. Antes da declaração da morte, a defesa de Mourão disse que, em razão do momento em que ele se encontrava, preferia não se manifestar, especialmente em respeito aos pais e familiares. “Não mais me autorizaram a fazer qualquer manifestação”, disse o advogado Robson Lucas.

As defesa de Fabiano Zettel e de Daniel Vorcaro não quiseram se manifestar.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado como 'sicário' de Daniel Vorcaro
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado como ‘sicário’ de Daniel Vorcaro

O Estadão reconstituiu parte da trajetória de Mourão a partir de conversas com pessoas que conviveram com ele e um processo judicial no qual ele era réu por crime contra a economia popular – esquema de pirâmide –, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Um dos relatos ouvidos pela reportagem dá conta que “Mexerica”, alcunha pela qual ele era conhecido na capital mineira, falava abertamente que preferia a morte à prisão. Fontes da PF de Minas chegaram a informar que Mourão teria morrido ainda na quarta-feira, dia em que atentou contra a própria vida após ser preso. Depois, uma nota nacional da corporação informou que não havia confirmação do óbito. Na última quinta-feira, a defesa de Mourão diz que ele estava vivo e que o estado era grave, mas sem protocolo de morte cerebral. Nesta sexta, porém, em nova nota, a defesa confirmou o óbito após a conclusão do protocolo.

As pessoas que aceitaram falar com a reportagem o fizeram com a condição de que suas identidades não fossem reveladas por medo de retaliação. Segundo a Polícia Federal, o grupo “A Turma”, coordenado por Mourão, atuava como uma espécie de milícia privada a serviço de Daniel Vorcaro.

Nas mensagens obtidas no celular de Vorcaro, há ordens do banqueiro para o “Sicário” providenciar a intimidação de funcionários e desafetos do grupo e também para “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo.

De acordo com a investigação, caberia a Fabiano Zettel repassar R$ 1 milhão por mês para Mourão coordenar e pagar as atividades e os integrantes da Turma. Além das intimidações, o grupo era responsável pelo monitoramento dos adversários e a obtenção de informações sigilosas.

Segundo os relatos ouvidos pela reportagem, após ganhar a confiança de Vorcaro resolvendo pequenos problemas particulares do banqueiro, Mourão teria montado uma rede de inteligência para ele, incluindo um bunker com hackers em um bairro de Belo Horizonte – de acordo com a PF, eles conseguiram acesso aos sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público e até do FBI e da Interpol – e pagamentos a garçons em troca de informações sobre frequentadores de restaurantes famosos da capital mineira. O objetivo era conhecer a rotina e conversas de autoridades ou figuras de interesse da quadrilha.

Problemas com a Justiça desde cedo

Mourão é descrito por quem o conhecia como fruto de uma família de dentistas de classe média de Belo Horizonte e que desde cedo esteve envolvido em problemas com a lei. Ele foi preso pela primeira vez aos 20 anos, em 2003, por receptação de veículos roubados, e solto no ano seguinte.

Um boletim de ocorrência da Polícia Civil de Minas Gerais aponta que, em 2008, a condição econômica dele já havia evoluído em razão dos crimes. O documento cita que Mourão era conhecido “no meio policial como autor de prática de clonagem e utilização de cartões de crédito, ostentando, dessa forma, patrimônio dignos de alta classe social”.

Os próprios registros policiais citam a alcunha de “Mexerica” para se referir a ele. Tratava-se de um apelido pejorativo em razão de uma malformação congênita na boca.

Ele voltaria a ser preso na noite do dia 10 fevereiro de 2020 no âmbito de um inquérito sobre um esquema de pirâmide financeira. A Polícia Civil pediu ajuda da Polícia Federal e Mourão foi detido assim que desembarcou no aeroporto de Confins em voo partindo de São Paulo.

Câmera de segurança de Confins mostram policiais acompanhando Mourão ao estacionamento do aeroporto após ele ser preso ao desembarcar do avião
Câmera de segurança de Confins mostram policiais acompanhando Mourão ao estacionamento do aeroporto após ele ser preso ao desembarcar do avião

De acordo com as anotações policiais, ele precisou ser atendido no posto médico após ser preso por causa de uma queda na pressão arterial. Os policiais também apreenderam um carro de luxo de Mourão que estava estacionado no local sob a suspeita de que o veículo havia sido adquirido com recursos ilícitos.

Segundo denúncia do Ministério Público, ele exercia em conjunto com outro réu, Bruno Corrêa Lopes, “a função de chefia, coordenação e articulação, detendo o domínio final e funcional dos crimes praticados pela organização criminosa”.

O mandado de prisão temporária não se estendia a Lopes, que em Belo Horizonte era visto com frequência na companhia de Mourão. Procurado, Lopes não havia se manifestado até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto. O processo ainda não foi julgado pela 5ª Vara Criminal de Belo Horizonte.

Um dos investigados por participar da pirâmide afirmou em depoimento à polícia que Mourão ligou para ele e lhe disse que “sua batata estava assando”. A ligação teria ocorrido porque Mourão ficou sabendo que o investigado “estava vindo ao Ministério Público de Contagem conversar com o promotor e o delegado”.

De acordo com a investigação, Mourão movimentou R$ 24,9 milhões entre 2018 e 2021, entre remessas e recebimentos, na conta corrente da Maximus Digital, empresa que teria sido utilizada no esquema de pirâmide.

Fotos tiradas pela polícia após a prisão de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão em fevereiro de 2020
Fotos tiradas pela polícia após a prisão de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão em fevereiro de 2020

Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou ainda que a King Motors, uma empresa de Mourão que também estava envolvida, movimentou mais R$ 3,3 milhões em um período de apenas cinco meses em 2020.

A King Motors teve o funcionamento suspenso na mesma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, que determinou a prisão de Mourão, Vorcaro e Zettel.

O ministro também suspendeu a King Participações Imobiliárias, outra empresa de Mourão. Segundo Mendonça, junto com outras empresas bloqueadas, elas foram utilizadas para a “prática dos mais variados ilícitos”, como viabilizar pagamentos para financiar as atividades ilegais do grupo e ocultar a origem dos recursos.

 

 

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