Patrimônio É… leva discussão sobre futebol para o Beco do Cirilo
Texto: Luiz Otávio Freire
Foto: Bruno Concha | Secom PMS
Na tarde da última quarta-feira (17), a Quadra de Esportes do Beco do Cirilo, na Caixa d’Água, deixou de ser apenas um espaço de esportes para se tornar um fórum de debate sobre a cultura soteropolitana. O projeto ‘Patrimônio é…’, da Fundação Gregório de Mattos (FGM), reuniu especialistas e a comunidade local para discutir o tema ‘Futebol: Identidade em Jogo’, reafirmando que o esporte é um dos pilares da construção coletiva do Brasil e da Bahia.
A gerente de Patrimônio e Equipamentos da FGM, Roberta Ventura, destaca a importância de refletir o futebol como fator de identidade e pertencimento para a população soteropolitana ”Descentralizar a atuação e esse tipo de diálogo aumenta a participação e democratiza o acesso à cultura, ouvindo as pessoas que fazem a cultura acontecer. Essa troca é essencial dentro do patrimônio cultural”, declara.
O impacto social do esporte foi o ponto central das falas de quem vive o dia a dia da comunidade. Denner Costa, professor do projeto Núcleo de Base (NB), destaca que o trabalho realizado com mais de 300 crianças do Beco do Cirilo e de bairros adjacentes vai muito além das quatro linha. Para ele, o objetivo principal é “tornar o cidadão de bem”. “Fazemos um trabalho com eles que vale mais do que o futebol ou do que uma bola dentro do campo: trabalhamos a mente dessas crianças. Para eles saberem lidar com as frustrações inerentes ao esporte”, declara.
Essa visão é endossada por Alana Almeida, moradora local, que celebrou a passagem do ‘Patrimônio É…’ no bairro. Alana ressalta que o futebol ensina disciplina, respeito e convivência, lembrando que “o futebol de alto escalão nasceu da comunidade” e que é fundamental que as instituições reconheçam essa origem histórica. “É importante trazer esse debate que fala não só sobre futebol, mas sobre inclusão e identidade”, afirma.

Patrimônio Popular e Representatividade
O historiador Ítalo Matheus Oliveira reforça que o futebol é um patrimônio cultural desenvolvido pelas classes populares e pela população negra e periférica, servindo como um elemento de identidade racial e de gênero. “O futebol é um patrimônio cultural que foi desenvolvido pelas classes populares, pelas pessoas negras e periféricas. É muito importante reconhecermos que o ‘futebol de margens’ é fundamental para chegarmos ao nível em que o esporte está hoje” , completa Italo.
Já o jornalista Franciel Cruz traz uma perspectiva voltada para o afeto e a celebração, afirmando que, para além da tática, o que o encanta é a “festa do futebol”, a arquibancada e a construção coletiva que ocorre nos arredores do jogo. “A festa do futebol é o que mais me encanta. Esse frisson é muito mais importante, no sentido de construção coletiva, do que até o próprio jogo”.
A luta por espaços mais inclusivos também foi pauta. Maria Ribeiro destacou que a representação feminina é fundamental no esporte, tanto em campo como nas arquibancadas. “Precisamos nos fazer presentes e mostrar que conhecemos, gostamos e praticamos o esporte”. Maria foi conselheira do Esporte Clube Bahia de 2021 a 2023 e aponta o machismo estrutural como o maior obstáculo para a presença feminina no futebol. “Acho necessário que existam mais instituições que pensem nesse tipo de representação e nos deem oportunidade para concretizá-la”, ressalta.
Para além dos convidados, o evento contou com a presença dos moradores da comunidade, entre eles os alunos do professor Denner, que contribuíram para a discussão e reforçaram a importância de que o debate seja aberto ao público de todas idades.

