22 de agosto de 2026
Cultura

VII Jornada do Patrimônio Cultural de Salvador inicia programação no Terreiro da Casa Branca

Texto: Ascom FGM

Fotos: Ricardo Prado

Em um clima de respeito, efervescência intelectual e acolhimento ancestral, teve início nesta quinta-feira (20) a programação oficial da VII Jornada do Patrimônio Cultural de Salvador. Realizado pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), o evento escolheu como palco de seu primeiro dia o emblemático Terreiro Casa Branca (Ilê Axé Iyá Nassô Oká), o primeiro terreiro de Candomblé tombado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN, que está localizado no Engenho Velho da Federação.

Com o tema central voltado às provocações e reflexões sobre os sentidos da patrimonialização e os desafios da preservação em uma metrópole marcada pela diversidade étnico-cultural, a jornada reuniu especialistas, acadêmicos, gestores públicos e cidadãos em uma imersão direta na história viva soteropolitana.

Abertura

A manhã começou com o credenciamento e recepção dos participantes, seguido pelas falas institucionais de abertura. Em seguida, a professora e pesquisadora Jamile Borges, vice-reitora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), conduziu a palestra magna intitulada “A superação do pensamento eurocêntrico no campo do patrimônio cultural”. Em sua exposição, Jamile enfatizou a necessidade urgente de reconfigurar os parâmetros tradicionais de conservação, que por séculos priorizaram monumentos de pedra e cal em detrimento das memórias, narrativas e vivências dos povos afrodiaspóricos e indígenas.

Após o intervalo para almoço – momento marcado por intensa integração e pela degustação da culinária tradicional no próprio espaço do terreiro -, as atividades retornaram no turno da tarde com a aguardada mesa “Preservação do Patrimônio Cultural: políticas, práticas e sustentabilidade”.

Mediada pela secretária Municipal da Reparação Isaura Genoveva, a mesa redonda reuniu importantes vozes da salvaguarda cultural: o professor e antropólogo Ordep Serra, o promotor Alan Cedraz e a pesquisadora Vilma Patrícia.

Durante a apresentação, Ordep Serra ressaltou a urgência de defender o patrimônio negro contra as constantes ameaças e a vulnerabilidade histórica a que é submetido. Sobre a participação no evento, o antropólogo destacou a importância do debate sobre o patrimônio.

“Precisamos falar sempre sobre esse o patrimônio em geral, especialmente o patrimônio negro, que é o mais vulnerável, que é atingido com mais frequência e que precisa de maiores cuidados. Eu tenho orgulho de dizer que a Casa Branca é a minha casa, de minha mãe Iyá Nassô. Então tem uma tradição muito linda e histórias maravilhosas”.

Na sequência, o promotor Alan Cedraz completou o painel de forma didática, apresentando os instrumentos jurídicos e as ações do Ministério Público da Bahia na tutela coletiva do patrimônio cultural e no combate à intolerância religiosa e degradação espacial.

Já a professora Vilma Patrícia encerrou a mesa com uma reflexão sobre o papel pedagógico dos espaços de axé e a urgência de uma formação profissional que contemple a diversidade étnica da sociedade baiana.

“Estar num espaço como a Casa Branca, celebrando o patrimônio, é reconhecer não só a Casa Branca como patrimônio, mas como difusor de conhecimento sobre esse patrimônio. É também fazer com que a comunidade se sinta pertencente de um diálogo mais amplo sobre o patrimônio na cidade de Salvador. trouxe a visão sobre uma formação profissional diversa que busca criar profissionais que entendam todo o patrimônio, seja ele o afro ou o indígena. A gente tem uma sociedade diversa, então temos que ter pessoas pensando diversos patrimônios”.

Visita guiada

O encerramento do primeiro dia contou com uma visita guiada pelas dependências do Terreiro Casa Branca, conduzindo os presentes por seus espaços sagrados e edificações históricas. Para o público participante, a experiência superou as expectativas acadêmicas, transformando-se em um ato de afeto e reconexão.

O professor Ihering Guedes, que acompanhou toda a programação do dia, elogiou a iniciativa da Fundação Gregório de Mattos e destacou a atmosfera de acolhimento do terreiro.

“Eu achei extremamente pertinente a forma de trazer os participantes para conhecer o terreiro e de mergulhar na história também. Eu achei muito boa a intervenção do Ordep, como um depoimento pessoal. Gostei muito também da fala de Vilma, sobre o projeto dela buscar a identidade profissional através da identidade étnica, foi maravilhoso. E a apresentação do promotor foi bem didática, encaixou perfeitamente. Além disso, aqui é um espaço de acolhimento , em todo momento eu me senti acolhido”.

Programação

A VII Jornada do Patrimônio Cultural de Salvador segue até sábado (22), com uma programação gratuita.

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