Orçamento secreto era organizado como ‘conta de padaria’ segundo interesses não republicanos, diz PF
SÃO PAULO E BRASÍLIA — A investigação que levou a Polícia Federal a fazer buscas nesta sexta-feira, 12, em endereços ligados à assessora parlamentar Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, braço-direito do ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL), ajudou os investigadores a descortinar como o orçamento secreto vinha sendo operado nos bastidores da Casa Legislativa.
Anotações obtidas pela PF reforçaram as suspeitas de que os recursos públicos eram destinados conforme interesses privados dos deputados e sem compromisso com projetos de longo prazo. O orçamento secreto foi revelado pelo Estadão.
Mariângela é apontada como a grande responsável pelo controle do orçamento na gestão de Arthur Lira. A Polícia Federal acredita que ela tenha agido a mando do ex-presidente da Câmara. O Estadão pediu manifestação do deputado e busca contato com a assessora.
Um dos manuscritos obtidos pela PF mostra que recursos inicialmente destinados ao município de Nova Russas, no Ceará, foram redirecionados a Reriutaba, no mesmo Estado, com base em um pedido informal do deputado Júnior Mano (PSB-CE), a partir de um ajuste com autoridades locais.
“A anotação sinaliza justamente a ‘troca’ da alocação do recurso pelo parlamentar, que aparentemente foi repassada à investigada para ajustamento orçamentário”, concluiu a PF.
Júnior Mano foi alvo de Operação Under, deflagrada em julho, por suspeita de desviar recursos de emendas. Ele nega irregularidades.

Ao pedir autorização para as buscas contra a assessora, cumpridas nesta sexta, a Polícia Federal destacou “o incomum desapego à formalidade na formulação orçamentária”.
“Uma anotação à mão, realizada de maneira rudimentar, foi responsável pela realocação de recursos de um município para outro. Lamentavelmente, não há como não comparar a maneira de controlar e organizar o orçamento secreto coordenado por Tuca a uma ‘conta de padaria’. A anotação transparece que milhões em recursos públicos eram direcionados a partir de comandos verbais, sem qualquer preocupação com projetos ou interesses republicanos de fato”, afirmou a Polícia Federal na representação.
Os recursos redirecionados eram vinculados à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), onde Mariângela mantinha assento no conselho fiscal. Depois que Arthur Lira deixou a presidência da Câmara dos Deputados, a assessora foi transferida para um cargo na liderança do PP.
A Polícia Federal afirma que essa e outras anotações comprovam que havia, na Câmara, uma “subdivisão, organização e loteamento de recursos conforme diretrizes não republicanas”.
“Várias tabelas confirmam que parlamentares tinham ‘reservas’ de valores de emendas a serem distribuídas, as quais era controladas ou passavam pelo crivo de Tuca”, afirmam os investigadores.
“A projeção mais evidente é de que estamos falando de emendas vinculadas ao orçamento secreto distribuídas desigualmente entre parlamentares, conforme critérios não claros, e controladas pela ex-assessora da presidência.”
