Caso Master: BRB agiu na contramão em ‘agressiva’ distribuição de lucros, aponta parecer
O Banco de Brasília (BRB) fez uma “agressiva” distribuição de lucros aos acionistas no ano passado, na contramão da cautela exigida pelas negociações com o Banco Master que deixaram um rombo bilionário. A conclusão é de um parecer técnico da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Em 2025, ano em que o BRB tentou comprar parte do Master, o banco estatal distribuiu 62,96% de seus lucros líquidos, ante a média histórica de 39,51%. Procurado, o BRB não respondeu.
Conhecida como “payout”, a distribuição de lucros aos acionistas é um dos principais indicadores da saúde financeira de um banco. Em cenários adversos, a companhia tende a reter lucros para fortalecer o patrimônio. A empresa pode inclusive aprovar em assembleia a retenção total dos lucros para fortalecer as reservas de capital.
Nessa segunda-feira, 2, o presidente do BRB, Nelson de Souza, disse a deputados distritais que o banco vai parar de funcionar caso a instituição não receba um socorro financeiro do governo do Distrito Federal.
BRB ‘agiu na contramão da cautela exigida’, diz área técnica da CLDF
“Causa espécie que o Poder Executivo requeira a urgência na aprovação de um aporte de R$ 6,6 bilhões para evitar sanções do Banco Central (BC), enquanto a própria instituição financeira não adotou, preventivamente, uma política restritiva de dividendos”, afirmou a área técnica da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), que fez o estudo a pedido dos deputados Fábio Félix (PSOL), Jorge Vianna (PSD) e Pepa (PP).
O documento analisou o pedido de aval do governo Ibaneis Rocha (MDB) para fazer um aporte no BRB, enviado à CLDF na última semana. O Executivo local ofereceu nove imóveis para serem vendidos, transferidos para o banco ou ainda usados como garantia em um empréstimo limitado a R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a outros bancos.
“A administração do BRB agiu na contramão da cautela exigida, promovendo o esvaziamento de seu próprio capital de absorção de perdas. Essa constatação compromete a justificativa técnica para o uso do patrimônio imobiliário do Distrito Federal como tábua de salvação”, seguiu o relatório da Consultoria Legislativa.
Presidente do BRB contradiz Ibaneis e confirma que imóvel ofertado para salvar banco vale R$ 100 milhões a menos
Durante a reunião na CLDF, o presidente do BRB apresentou documentos que contradizem o governador Ibaneis Rocha. Souza afirmou que um dos imóveis ofertados para salvar o BRB, o Centro Administrativo, vale R$ 491 milhões, R$ 109 milhões a menos do que anunciado pelo governador em dezembro. O laudo técnico do governo foi revelado pela Coluna do Estadão.
Plano do governador para usar imóveis em prol do BRB começou um mês antes da queda do Master
Um mês antes de o Master ser liquidado, a gestão Ibaneis iniciou um plano para usar imóveis públicos e aumentar o capital do BRB, segundo um parecer da Procuradoria-Geral do Distrito Federal em outubro passado.
Na ocasião, o BC havia reprovado a compra do Master pelo banco estatal. O BRB, contudo, já tinha um rombo nas contas depois de ter comprado R$ 12,2 bilhões de créditos podres do Master, segundo a Polícia Federal e o BC.
Além da oferta de imóveis como garantia para obter um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões para salvar o BRB, o banco pediu um aporte de até R$ 8,86 bilhões para reforçar seu capital após as perdas com o Master.
Até o próximo dia 31, o BRB precisa divulgar o seu balanço e apresentar ao BC a solução para reequilibrar o seu patrimônio. Caso contrário, pode receber uma espécie de “cartão amarelo” da autoridade monetária, com a aplicação de restrições ao banco, a exemplo do impedimento de abrir agências e expandir negócios.
