7 de maio de 2026
Politica

Os avanços para trás

Gosto de escrever sobre as minhas experiências de viagem. Não por acaso, me sinto mais inspirado quando estou perambulando mundo afora. Estar distante da rotina do dia a dia dá mais liberdade aos pensamentos. Temos tempo para observar, curtir e saborear a vida. Sem falar, é claro, nas paisagens diferentes e nas culturas que nos apresentam novos hábitos e jeitos de viver.

Confesso que, sempre que estou viajando, como agora, sinto saudades do Brasil. Não apenas da família, o que é natural, mas também dos amigos, da comida, do calor humano… Por outro lado, o que mais admiro por aqui é a sensação de segurança e, principalmente, a educação no trânsito. Sim, a civilidade no trânsito dos Estados Unidos chega a causar inveja até nos brasileiros mais apaixonados pelo país — seja para os motoristas, seja para os pedestres.

Nos EUA, o pedestre atravessa na faixa com total confiança. Nada a ver com o Brasil, onde a pobre faixa de pedestres parece sofrer de baixa autoestima — não é respeitada pelos motoristas e tampouco inspira confiança nos pedestres. No Brasil, as listras brancas servem mais como decoração no asfalto do que como garantia de segurança para quem tenta atravessar a rua.

O trânsito brasileiro é, de fato, complicado e perigoso. Os números não deixam dúvida: morre-se 3,5 vezes mais em acidentes de trânsito no Brasil do que nos Estados Unidos. Claro, a precariedade da infraestrutura das ruas e estradas brasileiras contribui para isso, mas não tenho dúvida de que boa parte do problema está no comportamento (ou na falta dele) dos nossos motoristas. Além de ignorar a faixa, muitos brasileiros não sinalizam quando mudam de pista, desrespeitam o limite de velocidade e ignoram as placas de “PARE”. O brasileiro é, no trânsito, mais apressado e menos cuidadoso.

E, falando em apressados, poucas coisas me tiram tanto do sério quanto aquela cena corriqueira do motorista que, no horário de pico, avança sobre o cruzamento para “aproveitar o sinal”, mesmo sem espaço à frente. Resultado? Bloqueia o cruzamento e trava a passagem de quem circula na via transversal. Isso tem nome: “obstrução de cruzamento”. E o impacto é direto — engarrafamentos em efeito cascata, que só agravam o caos.

Por essas e outras, admiro o trânsito aqui nos EUA. Os motoristas respeitam sua vez, aguardam com paciência, não fecham cruzamentos, não trancam a cidade e nem tentam “levar vantagem” em cima dos outros. Esse comportamento, que valoriza o coletivo acima do individual, diz muito sobre as diferenças de desenvolvimento entre os dois países. Mas isso, claro, é assunto para outro texto.

Minha esperança é que este texto chegue a muitos motoristas brasileiros. Quem sabe sirva para uma reflexão, antes daquela “avançadinha esperta”. Essas “avançadinhas” são a própria materialização da nossa cultura de querer levar vantagem em tudo. Cultura esta que, além de travar o trânsito, acaba por travar também o Brasil.

 

 

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